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Jan 05

Cavaleiro da Igualdade

José Troufa Real: Cavaleiro da igualdade, “sans peur et sans reproche”. Prisioneiro da
liberdade ao longo de 50 anos de riscos. Revolucionário de sempre, mesmo que contra
ele, se tal for justo. Por tudo isto, te dedico, igualmente, este poema escrito nos idos de
60, quando nos conhecemos.

Ordem para a guerrilha

Para os irmãos angolanos
Agostinho Neto e
José Troufa Real (arquitecto de fraternidade)

Na plantação de tabaco
em pleno Alto Niassa
enquanto passa e não passa
a presa fácil da caça
eu penso escrevo e condenso
o imenso grito suspenso
da chaga viva que morre
no silêncio que percorre
em loucos cantos o povo
o pouco rouco de novo
o povo simples e povo.
E passam-me pela memória
quarenta anos de história
anos e anos a fio
de arrepio e desafio
contra fascistas mandões
ladrões de algodão, leões
de Marrupa a Itoculo
na lei da selva no pulo
sobre o cachaço da fome
de quem nada tem nem nome
e em nome de nada aguenta
… que paz nos anos sessenta

Quarenta anos quarenta
em que a luta não rebenta!
quarenta anos de luto
de Rovuma até ao Maputo!
quarenta anos de chumbo
desde o Zumbo até ao Lumbo
anos e anos na vala
à catanada e à bala
anos e anos sem fala
nesta cruz que se não cala
de Zavala a Iapala
de Morrumbala a Nacala
Quarenta anos de negro
negro de negro do mato
negro de chá tão mulato
luto de copra tão branco
luto de paz luto à bruta
porque o luto é a paz na luta
é traição filha da puta
que esconde onde vive a mamba
que está na nossa machamba
porque a luta é o motor
da grande revolução
mas não é luta de cor
não tem cor a exploração:
nem preto contra monhé
nem branco a dar pontapé
luta entre os homens não é
luta entre trabalhadores
é luta contra senhores
fascistas – administradores
açúcar – imperialistas
arroz – colonialistas
é luta de quem tem mão
para escrever e fabricar
contra quem não tem senão
dinheiro para comprar
o valor da nossa mão
é luta contra este luto
do Rovuma até ao Maputo
contra estes anos – quarenta
em que a luta não rebenta!
Messalos sêcos aonde
se esconde a pátria maconde
zambezes de ódio zambezes
mil vezes cheios mil vezes
mil vezes enquanto passa
a presa fácil da caça
enquanto miro e não miro
desfiro e firo num tiro
e gesto a gesto atiro
tiros e tiros a fio
que mil vezes se engatilha
o tiro de uma guerrilha
que começa neste cano
– é todo um povo africano
de pé na minha memória!
é todo o assalto à vitória
na luta que o mato aguarda
porque a invencível vanguarda
é o povo de espingarda!

1963
(um ano antes de se iniciar a guerrilha em Moçambique)

 

João Guterres
Poeta, Engenheiro, Professor Universitário