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Dez 21

Um arquiteto para todas as estações

A arquitectura tem recorrido em várias ocasiões a outras disciplinas para avançar através dum caminho que parece esgotado em si mesmo. A necessidade de personalizar a busca, de argumentar as decisões ou de estabelecer um sistema de trabalho que permita soluções acertadas, pode iniciar o debate entre a arquitectura como processo e a arquitectura como resultado. Cada projecto deve ter a sua justificação e fundamento, o que faz com que o trabalho do arquitecto tenha de ser mais exigente.
A investigação em termos de ensaio e erro por meio da experimentação conduz à formulação das teorias para constituir-se em bases científicas. Podemos entender o projecto como a teoria que propõe o arquitecto para cada situação e, por outro lado, o processo que implica tanto a redacção do projecto como a investigação.
Existem dois métodos de trabalho, dois processos, duas maneiras de investigar. A investigação baseada na experimentação frente à investigação que utiliza a demonstração de outras teorias, próprias ou alheias. O processo frente ao resultado. O primeiro método é incapaz de predizer um resultado acertado; o segundo redunda nos mesmos acertos; sem ocupar-se do aspecto propositivo, sem preocupar-se em progredir.
Deve-se, portanto, como diz o crítico espanhol Andreas Perea, partir de três variáveis: “a instabilidade genética, a ordem das sensações, e a evolução no seu significado mais lato. Ou seja, em primeiro lugar, toda a arquitectura é susceptível de ser transformada, isto é, expansível até ao enigma do seu próximo uso. Todo o espaço é programaticamente flutuante. Em qualquer instante, o uso começa a fragmentar o espaço, aparecendo lugares que vão ser colonizados e aclimatados por programas quase imperceptíveis no seu aparecimento e, assim, qualquer zona se vai enchendo de modificações programáticas até resultar algo alheio à sua origem.
Em segundo lugar, deve-se ter em conta o último elemento que ajuda a aderir à limitada razão do descobrimento último da realidade, como seja a criação de uma certa ordem das sensações.
E, por último, é preciso ter em atenção que, para alcançar o descobrimento da realidade, é preciso atravessar uma sucessão temporal de «limiares de marcha”, que são lugares onde começam todas as possibilidades, a felicidade encontrada na mutação, na mistura dos espaços e na maneira de vivê-los.”
Não existem, pois, espaços estáticos, nem tão pouco a imagem por eles defendida, porque todo o espaço é dinâmico por si próprio. E é essa velocidade, esse movimento, que dá lugar às reminiscências instantâneas da memória, à nossa imagem da arquitectura, disciplina que, ao contrário do que tem acontecido até há pouco tempo, deveria ter estado sempre na moda, pois sempre deveria ter sido discutido o seu papel no quadro social e urbano que todos sofremos diariamente.
Tudo isto vem a propósito de Troufa Real, cuja arquitectura desinibida, de marcante carácter pessoal e dificilmente contagiosa, se manifesta cada vez mais viva, através da utilização de elementos que têm a ver com a memória dos lugares humanos, sem deixar, no entanto, de ser carregada com interesse formal ou de simplesmente transmitir uma mensagem de novidade na disposição ou na integração dos conjuntos edificados.
Sobrepujando as suas obras com uma grande dose de humor e de ironia, num quadro que tem como pressupostos constantes a integração, a continuidade e a fluidez, Troufa Real, a quem há que reconhecer, antes de mais, uma grande energia profissional e uma rara capacidade de força sintética, gosta de sobrepor mensagens e efeitos contraditórios, próprios de uma arquitectura experimental, que faz aceitar como um caminho pedagógico susceptível de várias perspectivas e soluções.
O espaço, a linguagem, a escala, o processo construtivo, a estética dos espaços intermédios unidos à sua própria interpretação da história e do lugar se conjugam interpretando uma mesma partitura. A poética aparece no seu discurso como inspiração que sugere alguma das decisões menos racionais, seja a metafísica de uma linguagem que é capaz de produzir experiências existenciais, seja a metáfora da arquitectura e vice-versa.
A liberdade pode ser entendida como a falta de preconceitos que lhe permitem abordar um problema em busca do complexo através do simples; o complexo como sobreposição das distintas etapas do conhecimento frente à anarquia. A libertinagem, pelo contrário, propicia resultados complicados partindo do simples, do urgente.
Talvez que as características singulares do seu trabalho apareçam durante a formalização das ideias, reconhecendo que a arquitectura tem um grau de autonomia que ainda não está definido. As ideias têm que se materializar e é nessa intervenção produtiva que surge inexoravelmente a forma, quando aparece involuntariamente a figuração iconográfica, o estilo.

Um não pós-modernista declaradamente anti-moderno

Afirmando-se não pós-modernista e declaradamente anti-moderno, Troufa Real é, sobretudo, para além de promotor da criatividade livre de restrições, um defensor da arquitectura para as pessoas, para o homem em geral, recusando a arquitectura que é apenas espectáculo, embora, por outro lado, considere o ludismo como essencial. Porque soube compreender há muito tempo as limitações do Movimento Moderno, o formalismo soterrado ou inconsciente duma arquitectura dita funcionalista, optou por seguir à letra um lema tão célebre como perigoso: “Arquitectura é volume, escultura”. Se bem que acabaria por começar a ser compreendido, primeiro a divisa soou a heresia e provocou grandes receios, porque nem sempre fica clara a linha que separa a exuberância feliz de formas facilmente inteligíveis do decorativismo banal ou do formalismo estéril, grandiloquente e a caminho da decadência.
“A arquitectura tem de ser um lugar de vida e de emoção e, antes de mais, não pode nem deve esquecer as pessoas”. Isto é, a cidade não pode ser feita racionalmente a partir da técnica, mas sim a partir da História, da Poética, da Ética, da Estética… da História, do passado e do presente das pessoas, sempre com base no humanismo como regra e escopo, muito próximo da cultura popular.
Ao contrário de Nuno Portas, que vaticina uma luta futura entre “a normalização global” e “as especificidades locais”, nacionais ou regionais, Troufa Real compartilha com Marcelo Villafane uma visão positiva da globalização como via de intercâmbio e de aproximação entre os seres humanos, continuando a achar que, ao contrário de a cidade passar a ser essencialmente técnica e, por definição, universal, continuará a ser um fenómeno essencialmente cultural, com valores regionais e nacionais.
E é isso mesmo que a fará muito mais estimulante, porque mais exigente do ponto de vista estético, ao mesmo tempo que lhe sobrepõe mensagens e efeitos contraditórios aceites como princípios pedagógicos. Ao recusar uma normalização, cada resposta, cada projecto, cada situação têm que procurar a sua forma “antropológico-cultural” de afirmar-se, mas também a sua justificação e fundamento, o que converte o trabalho do arquitecto em algo muito mais exigente do ponto de vista crítico e poético.
Por isso é que, ao mesmo tempo que faz uma arquitectura do óbvio e do arriscado, que carrega de uma boa dose de humor e ironia, defende como alternativa entre o “nacional” e a mestiçagem, uma “cultura arquitectónica directa” baseada na experiência e na comunicação do desenvolvimento técnico universal, porque a existência de uma identidade arquitectónica particular em confrontação com uma mestiçagem de estilos e de formas, não pode actuar como uma imposição na coexistência livre e diversa de modelos, se bem que valorize as diferenças e matizes que intervêm no conjunto.
Em 1980, com uma bolsa do Instituto Nacional de Investigação Científica, diplomou-se na Architectural Association School of Architects, de Londres, em Planeamento Nacional, Regional e Urbano, tendo obtido a graduação académica mais distinta (Honours). Durante os dois anos do curso de pós-graduação teve a oportunidade de estudar diferentes áreas, do âmbito do planeamento quer de natureza política, económica e social quer de técnicas específicas do planeamento contemporâneo, dentro de um contexto comparativo internacional. A nível das opções, dedicou-se particularmente aos problemas de Planeamento Nacional, questões regionais da Comunidade Europeia, problemas da Urbanização do Terceiro Mundo, Planeamento nos Países Socialistas e Política Económica das Cidades e Regiões.
A sua actividade pedagógica começou logo em 1968, em Luanda, nos Estudos Gerais de Angola, posteriormente Universidade de Angola, mas desenvolveu-se em Lisboa, na ESBAL, a partir de meados dos anos 70, no domínio do Planeamento Regional e Urbano, área sobre a qual desenvolveu grande parte dos seus estudos teóricos e publicações.

Da maldição do Tivoli ao edifício Milénio

A sua preocupação em humanizar a arquitectura na cidade, reabri-la ao saudável convívio com todas as artes, à imagem do estilo de vida e obra dos Modernistas, está sempre presente, tanto no empenho da sua actividade como professor, quanto na cor e ornamento, ou na utilização de elementos geométricos e simbólicos na sua obra.
Em Lisboa, em 1988, viu o seu projecto para a reconversão do Cinema Tivoli, na Avenida da Liberdade, ser recusado por questões técnicas e financeiras, ou, como acusou num artigo na altura, por “censura arquitectónica”. Desde que o Eng. António Lamas entrou para a presidência do Instituto Português do Património Arquitectónico, IPPAR, esta instituição não serve para nada, tem tanta falta de qualidade como a que lhe sobra burocracia. O próprio Eng. Abecasis, então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, escreveu que a reprovação do projecto do Tivoli apresentado por Troufa Real foi um crime de lesa-cultura.
O Eng. António Lamas é mais um engenheiro do Instituto Superior Técnico e que transformou o IPPAR no que ficou durante muitos anos, mera corrente dum regime policial e de censura aos criadores. O projecto que Troufa Real fez para o novo Tivoli foi chumbado pelo IPPAR, apesar de ter sido aprovado pelo então presidente da Câmara de Lisboa e pelos colegas, mas, o que é ainda mais triste, é que o que o substituiu, e que foi aprovado pelos tecnocratas de serviço, é aquela monstruosidade que está à vista, um conjunto de betão armado montado em cima de uma história que não tem nada a ver com nada. Ninguém sabe quem é o arquitecto, ninguém diz o nome, é uma arquitectura meramente especulativa.
Foi este um facto que, provavelmente, o motivou ainda mais a manter-se fiel às especificidades da sua obra e a sonhar a cidade desprendido dos atavismos tecnocráticos. Por isso mesmo, anos depois, no projecto para o edifício Milénio, no Arco do Cego, trouxe de volta a mesma carga de evocações do Modernismo: “pedaços” de vários edifícios históricos, como o Cinema Império ou o Cinearte, misturados com reproduções de uma célebre fotografia de Almada Negreiros, intervenção de Leonel Moura, que constitui um exemplar encontro entre a arquitectura e a arte, tudo refrescado com o sabor da memória dos gelados Rajá, cuja fábrica ficava ao lado – pelo que designará este edifício como “o cadáver esquisito de uma homenagem a homens que só sabiam trabalhar com artistas”.
Efectivamente, o Milénio, que quis chamar Império, pois é, de algum modo, uma homenagem à extinta Casa dos Estudantes do Império, que ficava próximo daquele local, é igualmente uma homenagem a homens que só sabiam trabalhar com artistas, pelo que é, também, uma composição de referência a grandes arquitectos portugueses, que integraram obras de arte nos seus trabalhos, como Cristino da Silva (Janelas do Areeiro), Cassiano Branco (Cinema Império), Raul Rodrigues de Lima (Cinemas Cinearte e Monumental), além de Jacobetty, Jorge Segurado, Keil do Amaral.
É um projecto que consubstancia uma atitude anti-moderna, um edifício para fechar o século, que pretendeu também ser um grito e um manifesto para alertar a sociedade de que Lisboa tem de acertar o passo com as outras cidades europeias, se ainda quiser ser a capital atlântica da Europa. E que, na forma como foi projectado e assumido, teve como objectivo acusar a administração em geral pela falta de humanidade nas obras públicas. A administração não deve ter medo das vanguardas nem do futuro. Deve acreditar mais nos artistas.

Renovar Lisboa

De 1994 a 1998, dirigiu uma grande equipa na elaboração e construção de uma parte da EXPO 98, uma zona para urbanização junto do rio Tejo na parte Sul, para o lado de Lisboa, denominada Plano de Pormenor 3. Além do planeamento, Troufa Real projectou o edifício de habitação “Casas do Tejo”, uma evocação dos Descobrimentos, ligada ao manuelino, à terra e ao mar, algo que pode ser descrito como “um navio fantástico encalhado na Expo’98”.
Segundo Troufa Real, no Parque das Nações expressam-se várias tendências de fim de século, tendo sido introduzida uma maneira nova de viver a cidade, com mais preocupação pelos direitos humanos, sociais e de respeito pelo ambiente, assinala. E ainda uma parte que tem a ver com alguma cultura simbólica, com referências de uma certa renovação classicista dos Modernistas – os decorativismos, principalmente, e com uma tradição antiga da história mediterrânica, normalmente evidentes nas chamadas zonas da Baixa, que são os quarteirõezinhos pequeninos e que nos recordam essas cidades bem latinas, à beira do Mediterrâneo, italianas, espanholas e portuguesas, fazendo uma espécie de ponte com a cultura greco-romana e com a antiga aventura da expansão, tradição que os portugueses e espanhóis levaram para os antigos impérios, nomeadamente para a América Latina e por esse mundo fora.
Nessa mesma linha de renovação do espaço citadino de Lisboa, pode considerar-se o seu plano de arranjos exteriores do Bom Sucesso, Belém, à volta da Universidade Moderna, que aproveitou de maneira magistral, com a criação de uma Praça junto ao Palácio do Governador da Torre de Belém; um percurso pedonal interior, entre o Centro Cultural de Belém e o passadiço; um passeio contíguo e paralelo à Avenida da Índia; espaços verdes de enquadramento e protecção; recuperação e conservação dos edifícios em ruínas, com pintura de fachadas; uma praceta e a instalação da Casa-Museu Lagoa Henriques em edifício municipal
Com efeito, Troufa Real conseguiu reabilitar este conjunto de edifícios em ruína, restituindo-lhe a dignidade da História do tempo e do passado e mantendo “o traçado original do edificado, evocativo do período oitocentista e de um imaginário que sublinha uma arquitectura de raiz industrial, onde, através da cor, e tendo em atenção a tradição cromática daqueles edifícios, procura recuperar uma paleta onde se retoma a luz, a sombra, o brilho e as cores do sítio, recordando dessa forma a ambiência e a atmosfera a que aqueles edifícios estiveram ligados, contribuindo de facto para a requalificação da imagem urbana».

Erotismo e transgressão

Entre uma certa perversão, concretizada, pela primeira vez em Luanda, numa delegação do Banco Pinto & Sotto Mayor, BPSM, e prosseguida com as suas casas eróticas, nomeadamente no Estoril e Açores, onde uma indelével expressão irónica se vai tornando a sua tónica, Troufa Real não perde ocasião para empregar a simbologia “sagrada”, pelo que aproveita sempre todas as oportunidades para utilizar portais e varandas triangulares, que fazem lembrar os mobiliários do Templo, entre outros numerosos detalhes que só um iniciado perceberá, mas que são, antes de mais, uma contínua homenagem a um mestre, Cassiano Branco, cujo nome simbólico era Vitrúvio, como é o caso, por exemplo, da casa-estúdio de Mário Cabrita Gil, em Alfama.
Razão porque, nessa mesma medida, tal como o mestre, compreende a arquitectura como uma arte partilhada com as técnicas, as ciências sociais e humanas, com todas as artes. A pintura e a escultura, especialmente, não se afastam do resto. “Há na arquitectura um grande compromisso com a cultura, a estética, a filosofia e as humanidades”, faz sempre questão em frisar.
Nessa delegação do BPSM, que ficava em plena capital angolana, na Maianga, feita com a ousada anuência – para a época – dos banqueiros Jana Raposo de Magalhães e do Conde de Paço de Arcos, teve a colaboração imprescindível de um artista como Carlos Fernandes, a quem recorreu noutros projectos igualmente inovadores. Carregado com evidente sentido erótico, foi levado a cabo, apesar dos protestos do arquitecto com quem trabalhava na altura, Vasco Vieira da Costa, um apaixonado do discurso técnico corbusiano.
«Fiz sempre uma arquitectura simbólica, que vou contextualizando nos sítios por onde passo. Adaptei-me sempre, inventariando não só a memória do lugar físico mas fundamentalmente a memória do lugar humano, a memória histórica para fazer cidade e construir a casa. Por isso é que, em Macau, fiz uma arquitectura que eu diria sino-portuguesa, e tenho obra nos Açores que tem a ver com o sítio, com as casas portuguesas, a memória mítica dos mares, e, enfim, um fascínio pelo fantástico.»

“Cozido à portuguesa com todos”

Decididamente, entre as vertentes portuguesas, por mares dificilmente navegados, apesar da sua coerência e pragmatismo, até à exaltação de um certo exotismo que tem a ver sobretudo com a exuberância das formas tropicais, misturado num “cozido à portuguesa com todos”, Troufa Real faz a simbiose de todas as influências aproveitando de maneira imaginativa os elementos da simbólica com o mar, inevitável recorrência lusitana, e especialmente com os arquétipos que lhe estão subjacentes.
Porque, para Troufa Real, antes de mais, a ideia que deve presidir a tudo é a partilha da vida; a sua obra não é narcisista, não é isolada, é, antes, um cruzamento das suas vivências e, sobretudo, das suas afectividades, das conversas/convívio com os amigos de sempre e os que foi fazendo nos últimos anos. Todos eles, desde os pintores Júlio Pereira, Artur Bual, Sá Nogueira e Carlos Fernandes, aos poetas como Herberto Helder e António Barahona, têm a ver com o que faz actualmente em arquitectura, que ajudaram a enriquecer, de vários modos, com as suas achegas e olhares.
Foi a partir de todas essas vivências, que pôde fazer uma arquitectura simbólica ligada ao fantástico, que tem tanto a ver com a imaginação exuberante e criativa reflectida pela literatura oral angolana transmitida pelos kotas (os mais velhos), como com a tradição oral portuguesa, cheia de contos de encantar e de fadas e duendes, que são bem a nossa herança céltica.
De certo modo, um dos traços da sua atitude africana é o multi-culturalismo e a sua necessidade de trabalhar em colaboração com artistas, pessoas que contribuam para o enriquecimento dos seus trabalhos e que mostrem igualmente o seu valor enquanto criadores com boas e novas ideias, que acrescentam algo mais à sociedade. Diz não saber viver sem os artistas, tanto na sua produção, enquanto profissional, como pessoalmente no convívio com escritores, gente do teatro, músicos, etc. “Gosto de ter a oportunidade de mostrar artistas de quem gosto e de me situar na minha obra com estes artistas, que passo a enumerar: Fernando Conduto, Sá Nogueira, Lagoa Henriques, Júlio Pereira, Leonel Moura, Noronha da Costa, Guilherme Parente, Joaquim Vieira, Daciano Costa, António Ole e Carlos Fernandes. A arquitectura e o desenhar da cidade é um acrescentar cultural de muitos valores. Vou buscar algumas vanguardas que resultam num trabalho profundamente racional e, ao mesmo tempo, espiritual e emocional, sustentado pela doutrina e educação na minha infância em Angola. Sou católico e maçon, faço a ponte entre o Velho e o Novo Testamento e é esse lado pedagógico e intelectual que dá sentido à minha vida e me ajuda a perceber que estamos numa corrente de solidariedade”.
Arquitecto arrependido que queria ser marinheiro, para ele o importante são os amigos, as pessoas, pois como diria Oscar Niemeyer, “A vida é mais importante e quando ela se degrada só resta a revolução”, por isso mesmo é que interpreta de uma maneira pessoal o pós-modernismo, preferindo-lhe as referências da pop art, que separa dos aspectos formais evidentes para concentrar-se em atitudes nem sempre conformistas e muitas vezes renovadoras e experimentais, numa articulação curiosa entre uma potente disponibilidade de referências, colhidas no universo significante da encenação, do ritual, do simbólico, conjugada com valores ornamentais cujas referências são os últimos movimentos estéticos do século XX.

Potenciar a imaginação

Criador nato, defensor das consultas públicas prévias na construção dum edifício, Troufa Real opta decididamente por um estilo colorido quase brutalista e aparentemente populista que, longe da elegância da alta tecnologia, não teme a estridência dos materiais, a robustez dos acabamentos nem as conotações morfológicas das suas construções. Com formas de barcos em terra, de petroleiros, ou mesmo de submarinos, as suas arquitecturas partem do princípio de que o seu material é a ilusão das pessoas, pelo que privilegia o insólito ao politicamente correcto. “A componente imaginativa e optimista deveria ser uma base fundamental para desenhar a cidade e para escutar as pessoas que potenciam a imaginação”. No caso da chamada Casa Portuguesa, é evidente que privilegia os parâmetros ambiente, materiais de construção, reordenamento, cor, história, luz e sombra, não esquecendo o intimismo da família muito à nossa maneira.
Não fazendo projectos para qualquer pessoa que o procura, pois primeiro tem de conhecer os clientes e só se se fizer amigo deles é que aceita os projectos, pois acha que o direito de escolha é fundamental para um criador e para um arquitecto especialmente, o seu atelier é, por isso mesmo, como já foi referido, uma casa de amigos, um templo de fraternidade, desde os seus colaboradores a todos os elementos que o decoram, nomeadamente uma casa de banho com pinturas pop do malogrado Carlos Fernandes – carregadas com o Imaginário do Império – uma colecção de obras de arte oferecidas por artistas e arquitectos amigos, não esquecendo o Laboratório de Maquetas onde em Setembro de 2001 acabaram de ser terminadas as referentes aos projectos do Templo Hindu, de Odivelas, das igrejas de Miraflores e de S. Francisco Xavier, e do “Coimbra é uma lição”, a que actualmente está a dar corpo.
«É importante saber rejeitar. O meu trabalho é sempre condicionado pelas relações com as pessoas e só gasto o meu tempo com quem me interessa e amo… Não sou um electrodoméstico ligado à ficha”, afirmava ao “Mais Semanário”, em 11 de Fevereiro de 1989.
O projecto de recuperação da Administração e das instalações comerciais da Fábrica Legrand, em Carcavelos, é um dos seus preferidos pela liberdade que os seus proprietários lhe concederam. Tratou-se de um mundo de comportamentos novos. A criação de um ambiente empresarial com jardins, com uma dimensão estética do espaço de trabalho que não decorre de leis ou imposições, mas sim do que afirma serem “novas atitudes das pessoas”.
“Na Legrand desenvolve-se um projecto empresarial global, em que o componente das reformas empresariais típicas, de reformulação a adaptação às novas tecnologias, não nega nem destrói a memória do sítio, do lugar, de um património construído noutros momentos da história e em fases tecnológicas anteriores. Há uma reciclagem, uma metamorfose, que permitiu manter um pouco das memórias dos sítios. Em todo o mundo, certas empresas estimulam a cultura e as artes de primeira linha, não por imposição legal ou para colher benefícios fiscais, mas pela sensibilidade das pessoas e por uma nova postura empresarial. Foi isso o que aconteceu com o meu projecto na Legrand, em que integrei uma bonita composição do Júlio Pereira. Porque a cultura não tem preço. E depois, é bom lembrar, na maioria das vezes, as coisas mais caras correspondem a uma maior qualidade artística. Trata-se, fundamentalmente, de uma questão de sensibilidade, que foi o que tiveram os responsáveis da Legrand”.

A burocracia contra Lisboa

“Em tempo de menor burocracia fez-se melhor cidade”, repetiu nalgumas entrevistas que concedeu nos últimos anos. “O futuro de Lisboa passa também pelo respeito pelos bancos da Brasileira, pelo direito de opinião da sociedade em geral e não apenas dos políticos, deputados e autarcas, que, infelizmente, protagonizam – segundo Troufa Real – a burocracia do Estado de Direito, numa dependência primária e cega. Lisboa é o Tejo, razão essencial da cidade, devemos estar todos voltados para o rio. Tudo o que seja reprimir a inovação é um acto dos “velhos do Restelo”.
A capital portuguesa preocupa-o, naturalmente, porque ele sabe, como poucos, que “Lisboa é a cidade da aventura portuguesa. Da ordem e da desordem, do profano e do sagrado, do mar de paixões e tragédia. É a casa comum das nossas Histórias, onde se fala uma língua única de convívio entre vários povos”.
A reprovação pelo Instituto Português do Património Arquitectónico, IPPAR, do seu projecto de remodelação do cinema Tivoli, a que já nos referimos, levou-o, entretanto, a declarar: “O tipo de arquitecto corporativo que hoje somos obrigados a ser nesta sociedade, nesta cidade, merece a minha rejeição. Por vezes, tenho vergonha da profissão de arquitecto, em que as pessoas têm de estar vendidas a tudo e a todos, em que há um clima de corrupção inacreditável, como no futebol, em que os colegas que vêem os nossos trabalhos são piores que os “pides” no tempo da ditadura, retiram capacidade criativa, e ofendem. Nos últimos anos tem sido demais. Está tudo entravado com tecnocratas. É por isso que estou arrependido e as pessoas só se arrependem daquilo que gostam. O que é difícil é sonhar, as pessoas perderam a capacidade do sonho, mas eu vou continuar na mesma. A má arquitectura que se pratica hoje na cidade de Lisboa é por falta de liberdade, porque a criação precisa de estímulo, não de desconfiança, não da prática cega daquilo que é o Estado de direito e da mera aplicação de leis, algumas das quais já não têm nada a ver com as realidades actuais”.
Não é de agora este discurso objectivo e denunciador quanto basta de situações que urge resolver. Antes de 74, dizia dele, na revista “Notícia”, de Luanda, o jornalista António Gonçalves: “Acho natural que se considere o arquitecto Troufa Real um mau funcionário. Sempre falou demais e se meteu onde não devia. É realmente um abelhudo, um chato! Sempre foi assim. Nunca como agora se pôs em causa a sua honestidade. Essa era a sua couraça. Chateou presidentes, foi incómodo para muita boa gente. Fartou-se de contrariar manobras tortuosas. Tinha também do seu lado o facto de ser um técnico competente e de nunca se negar a colaborar, fosse com quem fosse, em trabalhos de algum modo ligados a promoção social ou outros que resultassem em benefício da cidade.”
Agora, acusa: «A Avenida da Liberdade é o símbolo da crise cultural que atravessamos. É que há muita censura no nosso país. Os arquitectos não são livres. A liberdade de expressão, conseguida com o 25 de Abril, serve aos poetas e aos escritores. Mas não chegou aos arquitectos. Ainda temos de lutar por ela”.
E não hesita em afirmar: “Cá por mim, deviam fechar-se ao trânsito automóvel todas as ruas das cidades. Os automóveis ficavam de fora. E, depois, toda a gente junta, a passear, à boa maneira da cidade medieval, é que daria a verdadeira dimensão da cidade como lugar de viver”. O que levou um dos seus amigos a afirmar: “A sua anarquia programada, a sua coerência se necessário feita de contrários, o seu ritual de passagem em que até o acaso tem de ser assimilado, tudo na boa da transgressão, é tão vivo, tão coberto de paixão, que nos sentimos também comprometidos por este tempo de vozes silenciadas. Nele, que preconiza, se preciso for, para salvar as cidades, «uma arquitectura sem arquitectos»…”
Porque considera a cidade de Lisboa, um terreno fértil em história, cheio de lugares com muito para contar e onde a cultura encontra espaços ideais para se expressar, aceitou em 1995 o convite para integrar a comissão que deu nova vida à chamada Sétima Colina. Primeiro escolheram cores vivas para formar uma paleta de tons activos e poderosos. Depois calcorrearam várias vezes o percurso entre o Cais de Sodré e o Rato e acabaram por ressuscitar prédios sombrios e moribundos com tons como o azul-saloio, o «verde-excitante» ou o amarelo-barroco. A iniciativa urgia porque “Lisboa estava a ficar cinzenta e triste, como as pessoas. E surtiu efeito. Agora anda toda a gente a divertir-se com as cores da cidade.. Com a colaboração de Lagoa Henriques e José Augusto França, distintos apaixonados de Lisboa, pessoas que sempre se interessaram pela cidade antiga e, em particular, por este trajecto, foi dada nova vida a vários edifícios de interesse histórico-cultural situados em plena Lisboa romântica”.
À tese segundo a qual Lisboa tem uma cor específica, contrapõe uma posição «aberta»: múltiplos tons, porque a cidade sempre foi um tanto ou quanto desordenada, facto que tem a ver com uma certa liberdade muito própria.
Aliás, salienta, não foi por acaso que Almada Negreiros pintou «bocados de Lisboa às cores». Nem foi sem sentido que Carlos Botelho retratou Lisboa com as cores que ela tinha na realidade, antes de enfileirar no “Português Suave” ou, como alguém escreveu, antes de ter ido à lixívia, uma sentença ditada pelo Estado Novo, adepto dos brancos, dos rosas e das cores ténues de efeito sonolento.
“A nova paleta de cores activas resultou de uma pesquisa no sentido de redescobrir as cores da cidade. Escavando a camada exterior cinzenta dos edifícios velhos descobrimos que no seu interior existiam cores como os verdes, os vermelhos, os amarelos ou os azuis, referentes a épocas mais remotas. Antigamente pintavam-se os prédios de cinzento, com tintas de areia, para esconder os efeitos do reboco e as fissuras da estrutura. Ou seja, tentava-se aldrabar toda a realidade. A Sétima Colina fez reviver essas cores e, por isso, é que um prédio situado em plena rua de D. Pedro V, recebeu um azul muito saloio, enquanto outro, no Príncipe Real, foi contemplado com um amarelo muito barroco, remetendo para as descobertas, quando chegavam barcos de Veneza, quando havia ciganos e saltimbancos, mulheres bonitas e a cidade estava sempre em festa”.
Resumindo, de Troufa Real se pode dizer que todos os seus projectos são um pedaço de quem os faz e o rigor advém-lhe da radicalidade de traduzir a sua própria vida, a sua história, com simplicidade e eficácia, devendo ser, por isso, tidos com o olhar que desfruta o tempo na conformidade com outros quereres.

 

Rodrigues Vaz
Jornalista