Mundo e Liberdade » FTR | UKUMA

«

»

Dez 22

Mundo e Liberdade

“Christian Schultz definiu a arquitectura como a concretização do espaço existencial. De facto, o espaço tem de ter carácter, orientação e identidade. Dito por outras palavras, tem de ter a marca do tempo. Atrever-me-ia a dizer: tem de ter a marca da vida.

Mesmo nos grandes monumentos funerários, como, por exemplo, nos túmulos do Vale dos Reis, no Egipto, a estreiteza  e a inclinação do corredor de acesso à câmara do faraó são alarmantes, mas basta olharmos para o alto, en direcção ao céu, para descobrirmos aladas figuras recobertas de um manto azul profundo e nos sentirmos confiantes. A obra do arquitecto tem de ser aberta ao passado e ao futuro e tem de permitir que penetremos nela arrastando connosco o nosso próprio espaço, envolvendo-nos com a sua proposta e, inclusivamente, ofertando-nos um “sítio” em que nos sintamos bem para além do material inerte que nos rodeia. Por outras palavras, por detrás e por dentro da obra do arquitecto, tem de estar o seu espírito e, esteja ela onde estiver, a sua alma.

A obra de Troufa Real traz em si tudo isto, mundo e liberdade, seja na pobreza dos musseques de Luanda, que ele reinventou, quer no barco navegando alado na rudeza da terra, como se estivesse no mar, quer na visão da nova Angólia ou no futurismo da serpente sinuosa para Moscavide. Com tanta imaginação, criatividade e humanidade, Troufa Real poderia construir, ele sim, uma casa inspirada no quadro que Klimt traçou, em que um homem e uma mulher se entrelaçam de pé erguendo-se os dois como uma casa, uma casa feita de pedra, mas ao mesmo tempo de cor, de carne, de ossos, de sangue, de lágrimas, de tristreza, de esperança, de desespero, de alegria, de amor.”

 

Jacinto Simões
Professor Catedrático Jubilado
Médico. Poeta