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Dez 22

Troufa Real numa perspectiva antro-sociológica

Sendo um culto e distinto Professor universitário, um dos mais notáveis Arquitectos luso-angolanos e um consagrado Pedagogo, o Prof. Doutor Troufa Real é, dada esta convergência de qualidades, uma personalidade que se ganha em conhecer de perto, pois só assim poderemos dar-nos conta, por conhecimento de trato, do conjunto de capacidades que fazem dele um intelectual modelar, um docente-arquitecto invulgar, uma personalidade solicitadora de imitação e, ipso facto, um notável, situado no topo da “élite” cultural, o que o coloca na mira da inveja, que o mesmo é dizer, de um sentimento ínsito dos Portugueses.

Com uma inesgotável capacidade de trabalho, o Prof. Troufa Real tem conseguido conciliar a sua actividade pedagógica com o “incomodado academismo”, o saber com a criatividade, a abertura de espírito com a mentalidade imobilista e a determinação com a afabilidade, no processo escolar universitário de que é um mediático protagonista, a contra-gosto.

Humanista e voluntarista das cruzadas do Bem, não é um adepto da Ciência e da Arte como indústrias, de acordo com a sua tábua de valores, enformada por uma incontornável vocação universalista e um enorme respeito pelo Outro, de mistura com uma quase obsessão pela Simbólica, presente, permanentemente, no seu traço arquitectónico, que executa com visível desapego pelo mercadejar do talento.

Troufa Real é sobretudo um Arquitecto modelar na sua autenticidade: subscreve as suas ideias, opções e criações artísticas sem tergiversar, nem compromissos legitimadores, desculpabilizados com a invocação de “circunstâncias envolventes” ou a safardeza do “politicamente correcto”, e “não saindo de si mesmo” para, comodamente, se tornar um “artista bem pensante”. Troufa Real é ele mesmo em cada momento da sua vida. Não reentra em si próprio, porque a sua autenticidade não lhe consente que de si saia por uma qualquer conveniência de ocasião, mesmo quando acossado pela inveja e pelo rancor de despudorados ou pela guerrilha político-profissional de gente que não presta; o que, de resto, explica o modo como suporta as decepções ideológicas e mantém a constância nas suas amizades.

Militante político da esquerda moderada, nunca pactuou com a metodologia persecutória, nem com a androfagia partidária. Por isso mesmo, não é – parafraseando o politólogo José Adelino Maltez – um cativo político, nem um Artista algemado. Não é um arquitecto restritamente académico, mas sim um plasmador arquitectónico que transforma sonhos em realidades, de acordo com um invulgar poder criativo, a que não será alheio o seu rico itinerário genético, que lhe permite viver simultaneamente em dois mundos, com o corpo num deles e o espírito – como, aliás, o coração – em ambos. Angola e Portugal são os espaços do seu afecto electivo.

Avesso a fingimentos, é sempre ele próprio, diante de si mesmo, sendo inteiramente incapaz, dada a sua exemplar modéstia, de ir além do que parece, conquanto – como Poeta “pessoano” – por vezes desejoso de ficar aquém do que é, ou, para sua tranquilidade, ser apenas um entre os demais.

A maneira de estar na vida de Troufa Real  não se compagina com os   modos de ser dos que, avançando, usualmente, de recuo em recuo, vivem, inquietos, a ajeitar as velas ao vento, agrilhoados  a estruturas lógicas, latentes ou reais.

Personalidade com uma fisionomia bem definida – que alguns têm tentado denegrir pisando-lhe a sombra – o Prof. Troufa Real cumpre um projecto de vida que transborda de si mesmo e cujo êxito, por coincidência, se pode medir pelo número dos que o invejam e hostilizam, por não suportarem o seu talento, o seu direito ao sonho tornado realidade, a mobilidade ascendente do seu “status” principal. E, sobretudo, a sua ímpar capacidade de conjugar as artes de saber, ensinar e fazer.

 

J.J. Gonçalves
Professor Doutor Catedrático
Fundador e Reitor da Universidade Moderna
24.10.2001