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Dez 23

O seu primeiro aluno…com muita honra

O Professor Troufa Real é uma figura pública, justamente citado pela notável obra que nos tem oferecido à percepção e sentidos ao longo de tantos anos.

Se a mim me dá gosto falar da profunda amizade que nos une, do gozo das conversas sobre tudo isto e aquilo, e das discussões divertidas quando em projectos conjuntos, nesta ocasião prefiro referi-lo a propósito de um singular episódio que marcou a minha vida. Quando no final da década de 60 estudava na Universidade de Luanda no primeiro ano do curso de Engenharia Civil, um belo dia depara-se-nos a substituição do professor de Geometria Descritiva. Aparece um indivíduo novo, cabelo à pagem meio comprido, jeans dos pés à cabeça, e de sandálias; positivamente de sandálias. E, como se tudo isto não fosse já mais do que surpreendente, o homem trata-nos por tu! Praticamente, o limiar do escândalo num ambiente conservador como era o da época naquelas paragens.

Mal refeito do choque de semelhante surpresa, de coisa inusitada na instituição dos senhores engenheiros de hierarquias bem definidas, e eis que à noite, no Calhambeque – na altura a única discoteca de Luanda, aparece o professor de Geometria Descritiva. A ver quem está. Conversa apropriada e uns tantos copos, passei do espanto à aceitação. E, nas apresentações a uns tantos amigos, disse-lhe, admirado, da singularidade de tudo aquilo.

Ele riu-se.

Esta forma de comunicação franca e fácil, entretanto teorizada, estudada e aplicada como método didáctico, foi naquele tempo estabelecida pela originalidade do Prof. Troufa Real, como uma coisa simples e natural. A título de coincidência, a primeira cadeira que leccionei uns anos mais tarde foi, precisamente, a de Geometria Descritiva. Lembrando-me, é claro, sempre, do meu professor, Troufa Real.

O nosso reencontro no lindíssimo e forte projecto das Casas do Tejo foi denso de histórias e de acontecimentos.A arquitectura não institucional da zona da Expo teve neste projecto a sua génese. Juntos desbravámos as originalidades dos caminhos burocráticos da Expo 98, assim como os das licenças e os das aprovações, próprias das obras de construção em projectos especiais.

Fomos os primeiros na aposta e nas práticas.

Estávamos ainda na altura em que as questões urbanísticas da zona Expo eram a essência de um nobre objectivo. Agora infelizmente deturpado pelas “arquitecturas” sem urbanismo e pelo impune atropelo aos direitos dos cidadãos. Um lamentável desperdício.Viemos de uma África de esperanças e de entusiasmos que conseguimos transmitir a uma Europa de lentidão e cautelas.Por isso, Portugal é hoje um País sui generis na Europa. Como dizia o editorial do “The Economist” há algum tempo atrás, “o melhor país para se viver e o pior para se trabalhar”. Compete-nos vencer este ponto fraco.Mantendo a capacidade de nos indignarmos sempre que necessário, o que é mesmo fundamental é tirarmos partido daquilo que temos, cumprirmos intrinsecamente e difundirmos os princípios da ética e da moral e curtirmos, com vivacidade, o divertimento que é a Vida.

Hoje em dia o Zé Troufa apresenta-me como o seu primeiro aluno…

Com muita honra.

 

António Rosinha
Engenheiro Civil