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Dez 28

José Deodoro Troufa Real

Nunca tendo sido seu aluno, há muito que tenho o prazer de o ter como professor.

Foi como professor que me recebeu, quando durante o curso trabalhei a meio tempo no seu atelier. À época situado num palácio da Rua da Emenda, o atelier falava em seu nome na sua ausência. Espaços abstractos abriam passagem até  espaços simbólicos, paredes cobertas de desenhos, do próprio e de amigos, presentes que sempre iam chegando. Muitas maquetes, modelos velhos, novos e em construção, maquetes inteiras e partidas, pedaços que construíam novos “cadavre exquis” (como só voltei a ver muito recentemente no “Sou Fujimoto”). Aprendi aqui o trabalho material com as maquetas como algo indissociável do processo de investigação de projeto.

Foi como professor que me acolheu, quando comecei a trabalhar no seu atelier, após terminar o curso e em pleno processo de iniciar a EMBAIXADA. Ele percorria as salas de trabalho falando sobre tudo, e mais do que esperar o fim de um trabalho desejava sempre aprofundar os processos. Desesperava-se quando alguém não entendia a arquitetura como algo em contínuo, lento, constante, uma linha que se risca sobre os traços que se desenham sobre a outra linha. Como na arqueologia. O vegetal sobre o desenho CAD, uma transmutação genética gráfica, só se parava de desenhar depois da obrigação de entregar superava. Aprendi aqui a nunca confundir um processo burocrático com um ato de arquitetura.

Foi como professor que me convidou, anos mais tarde, para com ele “revolucionar” o atual espaço da Virtual Fundação Troufa Real – Ukuma. O amor e o conhecimento do legado em que intervíamos balançavam sem cair no pudor de atuar, graças a ele. Desenhava nos seus famosos cartões métricas complexas, figuras que lutavam em conquista de espaço, pormenores. Desenhava igualmente com o martelo, linhas sobre pedra bruta, proporções, relações que ninguém antevira, com a naturalidade e intuição poética próprias da experiência consolidada num elevado corpo de saber teórico, magistratura portanto, mestria. Aprendi aqui que mais do que o passado, “o futuro também é património”.

Professor Troufa Real, nunca tendo sido seu aluno posso afirmar sem isenção, foi um grande professor e será sempre um dos meus mestres!

 

Paulo Goinhas
Arquitecto
18.12.2013