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Out 18

Morreu o Professor Fernando Mourão, um verdadeiro amigo de Angola


Fernando Augusto Albuquerque Mourão
Sociólogo, Professor e Membro do Conselho Científico da Fundação Troufa Real-Ukuma
Fotografia: Inauguração da Sede Provisória da FTR-Ukuma em Luanda, Angola

Morreu no passado dia 30 de Setembro, em São Paulo, Brasil, o professor da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Augusto Albuquerque Mourão, um dos maiores pesquisadores e estudiosos da questão africana. Ele tinha 83 anos, estava internado havia 15 dias e sofreu falência múltipla de órgãos.
Fernando Augusto Albuquerque Mourão era Professor Titular da USP, e professor catedrático da Universidade Independente de Angola – UNIA.
Foi em Coimbra (Portugal), que o professor Mourão, nascido no Rio de Janeiro em 1934, começou a interessar-se pela área, especialmente por Angola, principal segmento de atuação intelectual e política em sua vida académica. Professor titular da USP desde 1971, quando começou a lecionar no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), ajudou a criar o Centro de Estudos Africanos (CEA) em 1965.
Os estudos e pesquisas sobre a África foram impulsionados a partir de 1967, quando a premência da atualidade política se impunha pela vivência de académicos brasileiros nos movimentos de independência e do nacionalismo africano. Mourão, que na Universidade de Coimbra teve como companheiros futuros líderes da luta pela independência, nomeadamente os angolanos Agostinho Neto. Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade, compartilhou dos seus sonhos, embora não aderisse aos ideais marxistas que os três professavam.
Os estrangeiros eram segregados na Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, pela ditadura de Antônio de Oliveira Salazar. Muitos deles foram interrogados e torturados pela PIDE, a polícia política portuguesa. Mourão e outro brasileiro, José Maria Nunes Pereira, regressaram apressadamente ao Brasil, pouco antes do golpe militar de 1964. Engajaram-se então em movimentos políticos de apoio à independência de países africanos, com conexões com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).
Como colaborador do jornal O Estado de S. Paulo, o também jornalista Fernando Mourão escreveu artigos que difundiam o ideal do nacionalismo africano das lutas de independência das colôónias portuguesas na África. Trabalhou ao lado de Miguel Urbano Rodrigues, membro do Partido Comunista Português, de outros exilados anti-salazaristas, que haviam sido abrigados pelo diretor do jornal, Julio de Mesquita Filho.
Adquirindo um renome internacional, foi convidado para participar na elaboração de uma das mais fundamentais obras da historiografia africana, a História Geral da África patrocinada pela UNESCO. A sua tese de livre-docência na USP, Continuidades e descontinuidades de um processo colonial através da leitura de Luanda: uma interpretação do desenho urbano, defendida no ano de 1988, constitui um marco na historiografia sobre a cidade de Luanda. De realçar, ante uma vasta produção, as suas reflexões sobre o colonialismo português no continente africano,  as relações Brasil-África, a Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e sobre as literaturas africanas em língua portuguesa. Não só foi um pesquisador de monta, mas um formador de novos africanistas nas suas orientações nas seguintes universidades: Universidade de São Paulo, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Universidade de Brasília, Universidade Agostinho Neto (Luanda),  Universidade Clássica de Lisboa e Universidade Técnica de Lisboa.
Fernando Mourão, que possuía extensa experiência internacional, especialmente em relações, negociações internacionais e campo da arbitragem internacional, defendeu a adoção de uma política solidária do Brasil nas suas relações com a África. Reconheceu mudanças na diplomacia brasileira desde o governo de Jânio Quadros, em 1961, numa linha anti-imperialista que foi mantida durante o regime militar e reforçada no governo Lula. Sem nunca ter tido militância partidária, o professor da USP tornou-se colaborador do Instituto Lula, em abril de 2012, para dar assessoria em questões voltadas para a África.
Autor de 11 livros, nomeadamente  A Sociedade Angolana Através da Literatura,  Continuidades e Descontinuidades de um Processo Colonial, e participação em outros 57, destacanado-se Os agregados populacionais, no volume de ALBUQUERQUE, Luís (org.). Portugal no mundo. Lisboa: Alfa, 1989, p. 295-198.
As relações do Professor Fernando Mourão com o Arq. Troufa Real foram sempre, além de cordiais, amistosas e francas. Membro ativo como poucos da Conselho Científico da Fundação UKUMA – Troufa Real, foi das presenças mais notáveis quando da sua apresentação em Luanda. Sobre o projeto de uma nova capital de Angola, respigamos do seu artigo, intitulado Angólia, a capital inadiável, o seguinte texto:
«Angólia, a nova capital de Angola, “não é um sonho; é um projeto, no dizer do arquiteto Troufa Real, que elaborou um texto inédito de elementos de referência e um outro sobre conceito.
A ideia central do arquiteto Troufa Real está, a meu ver, certíssima: criar a nova capital no ponto central da carta de Angola,”(…) região de encontro de etnias sem conflitos ou de conflitos atenuados, Terra de paz”, ponto central de aproximação e atração em relação à África Central e Austral, local onde nascem as mais importantes bacias hidrográficas do país, os “(…) cinco maiores rios de África”, zona de baixa densidade populacional, zona onde cabe a reconstrução da cidade-polo regional, futuro centro regional – no sentido do país nacional e inter-regional que pode oferecer e simbolizar o papel natural de Angola em relação à África Central e à África Austral.
Trata-se, a meu ver, de um projeto essencialmente político na perspetiva da redenção e vocação de Angola.
Luanda, belíssima, com toda uma tradição histórica, mormente em relação à libertação do país, é uma cidade com características próprias: cidade essencialmente comercial – acho difícil retomar o processo de industrialização na cidade – tal como ocorreu nas duas últimas décadas do processo colonial -, centro político onde hoje todo o país está amplamente representado, no Governo, na Assembleia da República, no Exército, na própria população – mas que ainda representa, por herança nas mentalidades, vários passados. Troufa Real acrescenta: “Todas as cidades são artificiais e é bom pensar no que seria hoje o Rio de Janeiro se Niemeyer não tive projetado a nova capital”.
Na conceção do arquiteto Troufa Real, em um desenho de “coroas circulares radiocêntricas com núcleos de estrutura reticular”, Angola representará a evolução a cidade renascentista à cidade africana moderna – uma estrela de cinco pontas, um pentagrama que, conjuntamente com a nova bandeira e o novo brasão do País, emergirá como um símbolo do novo milénio
Fernando Augusto Mourão Albuquerque chegou a ser preso pela PIDE, razão que o leva a regressar ao Brasil no início da década de 60, juntamente com um outro companheiro de luta, o também estudante brasileiro em Portugal José Maria Nunes, no tempo do presidente Jânio Quadros, que criou a Política Externa Independente (PEI), que tinha como meta estreitar as relações com o continente africano, em particular com os povos de língua oficial portuguesa.
No MABLA (Movimento Afro-Brasileiro para a Libertação de Angola) desde a sua fundação, em 1961, Fernando Augusto Mourão de Albuquerque, mais um grupo de companheiros, tiveram o mérito de levar a cabo o esforço de aproximação entre o Brasil e os povos das colónias portuguesas em África. Naquele tempo, já havia na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, centros de estudos com linhas de investigação sobre o continente africano e a presença de negros no Brasil, mas não eram valorizadas.
Segundo Fernando Augusto Mourão de Albuquerque, a razão por que vários eventos e articulações ocorreram simultaneamente com as mais variadas formações, envolvendo indivíduos e entidades engajados na luta anticolonial, torna difícil precisar a fundação do MABLA, um “movimento diversificado, plural e com uma organização sem hierarquia e, por conseguinte, não monolítico”.
Contrariamente ao jornal O Globo, associado ao lobby português pró-salazarista, os periódicos O Estado de S. Paulo, do tempo do jornalista liberal e antissalazarista Júlio de Mesquita Filho, que, à época, dirigia o jornal, teve entre os seus editores Fernando Augusto Mourão de Albuquerque e o jornalista português Miguel Urbano Rodrigues, ambos ligados ao MABLA.
Outros jornais que também tiveram ligações a este movimento foram o Portugal Democrático, o Última Hora e o Correio da Manhã.
Que o seu nome perpetue na nossa memória, como um dos melhores amigos de Angola e de todos os verdadeiros progressistas de todo o Mundo.

Rodrigues Vaz
Jornalista