«

»

Dez 23

Acerca dele, o Troufa Real

Se você dispuser, a seu lado ou por si, duma carta de Le Monde Politique, essa carta expressa, com dimensão acima da média, de limites e áreas precisas, um território algures em África e por convenção designado por Angola. Por ali, e sempre por ali, em conflito identitário não resolvido, existiu e existe um Troufa Real.

Menino, estupefacto e apreensivo, eu partilhava voos sobre a cidade. Troufa, de check list a fazer-se já por cima da dita, verificava, com frequência e paixão inusitadas, a formação e o crescimento da cidade. Indicadores de luminosidade, tragédias sentidas, discurso inflamado, a irreverência e o discurso da reforma, encontrava emissor credenciado neste personagem. Justamente, personagem. Por baixo, a cidade política, já antes de Abril, supunha, vagamente, a fúria troufiana nos dias seguintes. Rompia por gabinetes de decisão, de Palácio ou de instituição municipal, e fervia de ideias, necessidade de resolução e afirmava do direito à cidade daquelas imensas, mas apercebidas, áreas negras no texto da capital.

O urbanismo, as prudências na concepção, no programa e na forma de abordar, o amor por isso, pela cidade, o entusiasmo fervilhante pela ideia da pólis e das suas múltiplas faces (todas merecedoras de respeito), tudo isto eu aprendi com Troufa Real. Em si, e antes de tudo o resto, o homem é um pedadogo de excelência e de conhecimento diverso. Menino, para o bem e para o resto, incutiu-me esse gosto. Foi-se um provável engenheiro de minas, nasceu, por sua causa, um urbanista persistente.

E quantos, naquela cidade e nesta cidade-centro (a Lisboa do império) , não lhe devem a energia, o gosto, e a vontade de tratar dela e fazer por ela ?

O Musseque, essa imensa área intestina da cidade, mas pulsante de vigor e produção cultural, ganhou presença na mesa de decisores. Presença promocionada por aquele feitio incontornável, único, de irreverência incontida e expressão de negócio permanente. De humores variáveis, o Governador ou o Presidente da Câmara sabiam que a variabilidade só reconhecia contento com esta ou aquela satisfação da cidade negra. E, generosa, a cidade, essa, sabia, como sabe ainda hoje, que nada lhe era devido. Porventura corre por reconhecimento e esse, o reconhecimento, ele tem-no na sua cidade, hoje, no seu país.

Pedagogo, dirigente, estimulador de serviços públicos, factor de instabilidade no sentido da conflitualidade útil, o Troufa soube, porque é disso feito, transmitir ordem, método, organização e disciplina. Esta, na consideração única e erudita do conceito. Disciplina para ele é, e só, obtenção de resultados. Nada, portanto, a haver com a disciplina requerida por atávicos de sempre, mediocridade espalhada. Foram e são exemplos, entre muitos onde se inscreveu, o Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal de Luanda ou o Gabinete de Habitação de Angola. Ainda hoje perdura essa memória de excelência e de resultados. Como perdura esse lugar de encontros mágicos que se reflectia no seu atelier (de então),  donde se escapavam obras de encanto a pontuar cidades e a preencher de ternura os olhares de cidadãos.

O arquitecto? Esse, reconheci-o naquele espaço imenso de criatividade, bem estar e poesia, por ali, pela Av. António Barroso/Luanda. E por aqui, na Rua da Horta Seca/Lisboa. E em mesas muitas de cafés e restaurantes de Lisboa, Luanda, Macau, Rio ou mundo, na rua ou em viaturas improvisadas, no barco ou simplesmente estando. São aos milhares, os desenhos que, desde então, aquela mão e aquele cérebro de esteta rompante, aquela memória de mundo,  testemunham uma capacidade única de conceber e acrescentar beleza ao mundo.

Beleza construída em lugares por aí, beleza impedida em muitos arquivos de instituições menores também por aí, beleza sofrida esperando mudanças. Mudanças difíceis que o mundo, esse, é lento na admissibilidade dos actos geniais e permissivo e estimulador da mediocridade vaidosa e de arrogâncias estruturais.

Arquitecto e só. , em leituras diversas, incapaz de abraçar as exigências do mundo traduzido em variações administrativas.

Dele, só se podem esperar harmonias e sinfonias de desespero nos actos de criatividade incontida. Dele, porventura, porque é o Troufa, não se pode esperar senão isso mesmo.

E também, a total incapacidade de admitir ou considerar sequer a cidade dos papéis em que, aparentemente, todos nos parecemos conter.

Para ele, a cidade são as pessoas e os gestos. 

 

Carlos Fernandes
Engenheiro Civil
17.10.2001