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Dez 23

“Sedutor, Anarca, Ousado”

“No Troufa Real os seus defeitos são as suas qualidades. Não se trata de umas compensarem as outras, não, coincidem absolutamente.

Conheci-o quando o Centro Nacional de Cultura ensaiava os primeiros passos em democracia, ele regressado de Londres havia pouco.

O Centro Nacional de Cultura procurava afirmar “um outro conceito de cultura” (hoje ainda seu lema) e ele procurava o mesmo na arquitectura e na cidade.

Telefonei-lhe um dia, sem o conhecer, por ter lido umas frases suas com humor e acutilância, a saber se queria colaborar connosco. Exclamou que nesse mesmo dia tinha decidido que me ia telefonar. Levou-me logo a ver o seu belo espaço da Horta Seca em plena recuperação – o que, em tempo pós-revolucionário, era, se não ousadia, pelo menos forte originalidade.

Chegou a ser membro da direcção do Centro Nacional de Cultura. O seu conceito de lusitude aproximava-o do nosso esforço de tirar o pó ao orgulho patriótico.

Um tempo seguimos caminho juntos. O que eu apreciava era aquela loucura mansa. Deu-me a conhecer o Pancho Guedes, a pessoa e a sua arquitectura antropomórfica.

Rasgou no Centro Nacional de Cultura alguns horizontes, sobre a importância de ousar o novo na cidade e de submeter a arquitectura à medida humana.

Fomos continuando a cruzar-nos: no Largo das Belas Artes, em Macau, por aí. Sempre o mesmo. Sedutor, anarca, ousado. E com a dimensão pessoa e a dimensão espírito sempre presentes na sua obra de arquitecto-artista. Por isso aceitei com prazer o convite para participar na homenagem a este “arquitecto arrependido que queria ser marinheiro”.

 

Helena Vaz da Silva
Presidente do Centro Nacional de Cultura
Deputada do Parlamento Europeu