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Jan 10

O Arquitecto Vasco Vieira da Costa

Há bem pouco tempo no Porto faleceu Vasco Vieira da Costa.
Morreu um amigo, um pedagogo, um «mestre» da arquitectura em terras, de África; com 71 anos de idade, desgostoso, muito cansado e doente apenas deixara Angola (Luan­da).-terra onde vivia e queria morrer para se vir tratar em Portugal.
Personalidade bem conhecida de todas as gerações de arquitectos que passaram por Angola ou se interes­savam pela arquitectura da África Tropical.
Era uma «referência» obrigatória no roteiro da cultura dos arquitectos em África. Dal que Louis Kahn, aquando da elaboração do projecto do Consulado dos Estados Unidos da América (1963). o ter visitado e pas­sado  longas horas em conversa.
Estar com ele ou ver a sua obra aprender qualquer coisa de diferente do que se passava na Europa ou noutra parte do mundo ou mesmo, â sua própria volta, lá em Luanda, dado que o que ele fazia de facto era outra coisa que nada tinha a ver com a arquitectura que se produzia «nor­malmente» segundo os «padrões» ou «normas» da Metrópole e que bru­talmente era implantada em terras onde a história era outra, e onde muita gente não sabia entender ou não queria compreender (por outras razões, claro!…).
Vasco Vieira da Costa estudara arquitectura na Escola do Porto, fizera Urbanismo em Paris e traba­lhara no Atelier de Le Corbusier (que lhe deixou a marca) na década dos quarenta, portador de uma carga, cultural marcadamente europeia e animada pelo movimento moderno, profundamente conhecedor da «sua terra» Angola, acabaria por ser dos raros arquitectos que ao intervir na África Tropical conseguiu dar saída aos muitos dos problemas de relação com o «meio» (que então se levan­tavam) no acto de fazer arquitectura, sem trair a didáctica do movimento moderno (por vezes exageradamente) e sem ofender a terra onde inter­vinha.
Exigente na prática profissional, rigoroso no exercício do projecto, escrupuloso na ética profissional e intransigente nos valores e nos prin­cípios que defendia, Vasco Vieira da Costa esforçava-se nervosamente por transmitir às gerações mais novas que passavam pelo seu pequeno atelier em Luanda (e eu fui um deles) tudo que aprendera alertando todos os cuidados e cautelas (pedagogica­mente) de que um arquitecto se devia reunir por forma a poder actuar sem os riscos (que ele sofrera e n3o •foram poucos…) numa terra tão difí­cil de exercer a profissão como era aquela naquele tempo. Muitas vezes o ouvi dizer «que a maior sorte que tivera na sua vida fora nenhum dos seus filhos ter seguido arquitectura».
De facto ele sabia-o e tinha-o sen­tido na pele. Nos primeiros embates da sua vida com a difícil máquina municipal da antiga colónia (por vezes ridícula), normalmente «crivo» fatal do trabalho de um arquitecto, que ele resistiu, combateu e , no nosso entender, saiu merecidamente vitorioso,
Foi e continuará a ser um exem­plo para todos nós. Vale a pena ir a Luanda conhecer a sua obra cujo significado e qualidade são inegáveis. Pode-se destacar e apenas como referência, o Mercado de Quinaxixe, o Laboratório de Engenharia de An­gola, a Sede da Associação dos Na­turais de Angola, o Edifício Sécil. a Escola Inglesa, o Edifício no Largo da Mutamba, hoje Ministério das Obras Públicas, conhecido pelo «Pom­bal» devido à forte presença de uma «grelha» contra a insolação.
É importante referir o seu empe­nhamento e interesse na defesa da classe dos arquitectos tendo sido o primeiro presidente da Direcção de Secção de Angola do Antigo Sindi­cato dos Arquitectos, Secção que viria a ter uma forte acção na criação da Escola de Arquitectura de Angola, da qual até à sua morte fora o seu responsável, dinamizador e professor.
Angola perdeu assim um dos seus-importantes quadros e Portugal um grande amigo. Da nossa parte resta–nos a saudade, a gratidão, um cami­nho a não esquecer…

 

Troufa Real
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