Não é a primeira vez que Troufa Real expõe os seus desenhos em galerias, escolas artísticas ou instituições, associando-os mais ou menos aos projetos de Arquitetura a que pertencem enquanto esquiços de trabalho ou meios de comunicação a terceiros. Mas os seus desenhos não se esgotam na relação com os projetos. Vão para além disso, estendem-se para o imaginário do arquiteto e mesmo para registos pessoais de viagem ou afetos, numa linha de continuidade da produção de desenho que se perde na noite dos tempos como se pode constatar nas classificadas gravuras do vale do Côa, onde animais de grande porte foram sucessivamente retratados no Paleolítico Inferior como registo xamânico de caçadas ou evocação para continuá-las. Não se sabe ao certo, mas os traços incisos nas rochas de xisto do vale testemunham bem essa ancestralidade e impulso do desenho no ser humano e que Troufa Real assim continua em pequenos cartões sempre à mão, disponíveis para o registo do que vê, imagina ou está a projectar, usando a caneta sobre o papel branco, por vezes continuando a sua laboração com o lápis de cor ou a aguarela.
As raízes mais próximas em Troufa Real não são evidentemente esses desenhos da pré-história, estarão muito mais na tradição Belas Artes que as escolas com esse nome perpetuaram desde o início do século XIX até meados do seguinte, mesmo para a Arquitetura. Nesta disciplina, o desenho está na base do projeto como sustentáculo do método de trabalho, como se percebe na origem da palavra inglesa design, que significa sobretudo projeto e veio da italiana palavra disegno durante o período renascentista de que o arquiteto da corte de St. James, Inigo Jones, foi veículo e exemplo no início do século XVII. Em paralelo o desenho era também registo nos primeiros tempos da Ciência moderna, bem como de observação para os que viajavam a partir dos portos europeus até outros continentes. Igualmente a Pintura, bem como a Escultura basearam-se no desenho como matriz das suas obras. Com o andar dos anos, o desenho tornou-se campo próprio nas Belas Artes, tendo hoje espaço próprio em muitos museus de Arte. Percebe-se pois que o desenho expandiu-se como suporte dos conhecimentos e práticas humanos avançando com as sucessivas modernidades até hoje, desde a Informática às viagens dos veículos pelo espaço extraterrestre.
Voltando à sua importância para a Arquitetura e ao longo do século XX, se o desenho se relacionou preferencialmente com o rigor necessário ao projeto que ia absorvendo as evoluções técnicas e metodológicas em complexidade crescente, não se pode esquecer o esquiço, o desenho à mão que regista observações, análises de sítio, ideias projetuais ou ensaios de soluções gerais ou particulares. O já referido ensino nas escolas Belas Artes deu uma enorme ênfase ao desenho e sobretudo àquele que representasse as imagens do futuro construído ou mesmo do passado pois as lições daqui retiradas associavam fortemente Arquitetura e Arqueologia. Assim o que interessava era, através de desenhos com grande mestria técnica, apresentar um futuro (porque o projeto implica o tempo à frente) perfeito segundo regras de composição estética baseadas na Tradição Clássica ou nalgum passado histórico valorizado, afastando a Arquitetura da realidade construída e habitada e em grande contradição com a profissão de arquiteto, aprofundando o fosso entre ensino e prática profissional. No entanto o elo de ligação era o desenho pois a prática do bem desenhar acabava por criar um profissional de exigência e rigor que se reflectia na obra arquitectónica projectada por arquitetos, mau grado as deficiências de um ensino que tinha muitas dificuldades em encarar a prática construtiva contemporânea e a relação com a sociedade do seu próprio tempo.
Com as vanguardas do Movimento Moderno entre as duas Guerras Mundiais tal estado de coisas foi-se modificando, já se notando tal em alguns dos arquitetos que imediatamente as antecederam. Vejam-se os britânicos dos Arts & Crafts, o austríaco Adolf Loos ou o norte-americano Frank Lloyd Wright. Este último produziu desenhos magníficos para a apresentação dos seus projetos e que se percebem muito influenciados pelos arquitetos Arts & Crafts. Com uma colecção deles apresentou-se na Europa Central, quando aí esteve refugiado de um escândalo social em Chicago, e causou forte impressão também pelas características dos projetos que representavam.
Daquelas vanguardas há que lembrar, em primeiro lugar, Le Corbusier que fez inúmeros desenhos para assentar e comunicar as suas análises e ideias de soluções para o mundo moderno, publicando-os nas dezenas de livros e centenas de artigos que escreveu, não esquecendo o papel central que também tiveram no seu método de trabalho. A simplicidade do traço, quase que infantil, exprimia uma poderosa capacidade de síntese e ajudou a ser compreendido um pouco por todo o mundo, demonstrando quanto o desenho, mais que as línguas nacionais, é também um processo comunicativo universal. Afinal e voltando às gravuras do Côa, basta lembrar que estas ainda hoje são compreendidas por todos naquilo que representam de imediato: os animais caçados por esses homens pré-históricos que não tinham escrita.
Le Corbusier, que foi o mais influente arquiteto do século XX, também no esquiço, no desenho simples e não elaborado para apresentações “artísticas” ou “comerciais”, marcou as práticas dos arquitetos, afirmou a importância deste tipo de desenho na Arquitetura e que podemos observar em tantos arquitetos na segunda metade do século XX como Louis Kahn, cujo traço grosso, evitando o pormenor para apenas representar o essencial, reforçou o descomprometimento do desenho simples, do esquiço.
Assim podemos entender, em Arquitetura, a existência de desenhos elaborados ou os esquiços mais livres, para além do desenho técnico de rigor milimétrico que os desenvolvimentos da Informática ainda acentuaram mais nos tempos recentes. Estes desenvolvimentos, pela facilidade de manipulação que trouxeram, poderiam ter diminuído a importância dos esquiços, mas afinal criaram dispositivos para os continuar, o que é um sinal da permanência do desenho livre, que implica uma relação direta entre mente e mão e gera estilos muito pessoais de traço, de expressão, de forma.
Em Troufa Real o uso dos pequenos cartões já implica uma escala nos seus desenhos livres que leva a uma síntese da ideia ou do que está a observar expressa numa linha traçada a caneta de grande precisão, mas que mostra o esforço dessa síntese no seu ligeiro ondular, conferindo uma vibração que dá “vida” ao desenho, imprimindo-lhe uma tridimensionalidade para além da sua representação no sistema de perspectiva, quer de ponto de fuga, quer axonométrica. O arco de tempo que cobrem estende-se da década de 1980 até aos nossos dias e, para esta exposição, foram organizados em cinco temáticas correspondendo a caracterizações diferenciadas. Casas Portuguesas e Barcos em Terra desenvolvem-se em torno de dois pontos de interesse bem reconhecíveis no seu universo arquitetónico. O primeiro á associável a essa figura amada e odiada na Arquitetura em Portugal que foi Raul Lino, em particular no que toca ao nacionalismo transposto para as habitações unifamiliares que projetou, onde procurou aplicar as invariantes que apresenta em A Casa Portuguesa (1927) e as diversidades regionais como se pode constatar em Casas Portuguesas (1933), tudo isto traduzido em elementos decorativos e construtivos, mas não espaciais, integrados em tipos habitacionais fortemente relacionados com a Arquitetura Doméstica de origem britânica e que se espalhou rapidamente um pouco por toda a Europa Ocidental e pelos EUA. Naquela última publicação, os desenhos de Raul Lino, abundantemente usados para ilustrar exemplos concretos da sua lavra, são fortemente apelativos, mas estão mais próximos dos assinalados de Wright do que os de Troufa Real. O segundo ponto é o barco, muito atrativo em termos pessoais, no entanto também modelo arquitetónico quer na sua economia de espaço interno, quer na sua relação com a paisagem: o barco sólido e simétrico confronta-se com o mar líquido e instável, tanto calmo como encapelado em ondas revoltas.
Já em Geometria Sagrada podem-se reconhecer as recentes incursões em projetos de edifícios religiosos, explorando valores simbólicos e imagéticos a eles associáveis e numa procura de relação com o crente que já foi experimentada e até afirmada, por exemplo, por Luís Cunha, outro arquiteto grande cultor do desenho em diversos tipos. Neste encontramos desde desenho imaginados, a propósito de ideias de resolução de problemas sem qualquer encomenda formal, até à grande quantidade de desenhos à mão de suporte ao projeto de obras a construir, onde o prazer do desenho é vetor de grande importância na criação de soluções projetuais. Esta relação entre imaginação, desenho e projeto encontra-se em muitos dos desenhos de Arquiteturas Malditas cujos projetos foram assim apelidados por terem sido rejeitados pelas autoridades ou pelos donos de obra, nos quais o arrojo das soluções sob o ponto de vista formal ultrapassa de longe os limites do que é habitual. No entanto Troufa Real não os concebeu sem os alicerçar em razões explícitas com as quais procura disciplinar a sua imaginação.
Curiosamente, este enorme conjunto de desenhos e maquetes reporta-se essencialmente a Portugal, excluindo Angola ou Macau para onde trabalhou ou trabalha, para não falar de Londres onde estudou ou dos muitos países que visitou um pouco por todo o planeta. Em Viagens. Simbólica.Desenhos, um pouco dessas geografias aparece, talvez para as lembrar, pois não estão dissociados do Portugal como Troufa Real o entende, simultaneamente local e mundial, fruto dos constrangimentos do pequeno rectângulo na Europa e da sua expansão pelos mares fora, num tempo histórico já passado, mas que se reflecte na super-globalização dos dias de hoje.
Michel Toussaint
Arquitecto
16.09.2014