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Dez 23

Trazer à memória Loanda

O Professor Arquitecto José Deodoro Faria Troufa Real é, de um modo geral, uma referência para os Angolanos, exceptuando-se, é claro, os seu detractores. De homem notável há sempre quem diga mal. Os Chineses têm um curioso provérbio, que não resisto a citar: “A cão morto, ninguém dá pontapés”.

Do que ele representa no contexto da sociedade portuguesa e da própria comunidade angolana que em Portugal se refugiou, não é tanto o Artista, nem o Arquitecto notável o que mais impressiona, ao traçar este curto texto. Sabem o que é? É o trazer-me à memória uma Loanda, que se escrevia com “o” em vez de “u”, em que a moeda local não era o escudo prestes a europeizar-se, nem o kwanza do faz-de-conta-que-vale: era, sim, o angolar, o bom angolar e sua irmã menor, a macuta que, se deslizavam, era da mão da miudagem para a do vendedor de baleizão que percorria a cidade no seu triciclo reluzente, de cores suaves e alegres, refrescando e adoçando a boca de pequenos e graúdos…

Era a Loanda das Ingombotas e da Maianga, da pesca à linha, na baía calma, serena, luminosa e ardente, a baía das mabangas com que se enganavam os roncadores e as garoupinhas, do comboio-bébé que percorria a Ilha, dos coqueiros e casuarinas, que a emolduravam. Era, enfim, a Loanda das quitandeiras, das mabocas e pitangas, dos tamarindos e da fruta sape-sape, onde meninos brancos, pretos e mulatos confraternizavam, nas suas brincadeiras, alheios às “conferências contra o racismo”. Era a Loanda onde, de quem não ria nem brincava, se dizia estar “com cara de múcua”, a Loanda das matinées do “Nacional”, agitadas e barulhentas, em que se fazia um súbito silêncio, logo que as luzes se apagavam….

Era a Loanda de tantas e tantas coisas gostosas, que nem um livro chegava para as recordar a todas…

E, quando hoje (e não há semana em que isso não aconteça, uma, duas ou mesmo três vezes) estou com o Zé Troufa Real (o nosso Zé), não é o Artista de sessenta anos, homenageado, consagrado e extrovertido, com aquela graça espontânea que Deus lhe deu e que a Vida refinou, que um dia embarcou para a Metrópole, para ser arquitecto e por aqui granjeou amizades e notoriedade… Que me interessa o Professor, se eu sempre verei o miúdo?….

 

Humberto Baptista da Costa
Velejador. Membro Fundador da Mesa de Luanda e de Portugal dos Irmãos da Costa
17.09.2001