Falar do Zé? Do Troufa Real? Será, mais coisa menos coisa, o mesmo que falar de mim. Um prazer.
Alguma vez, em muitos anos de amizade comum, desde a década de 50, no velho Liceu Camões, terei ouvido chamar-lhe Trunfa-Real? Talvez não, mas seria bem achado, embora o feitio do Zé não pudesse, à época, dizer o mesmo. Havia de ser lindo!
E eu poderia contar muitas histórias, umas mais impublicáveis que outras, desses nossos anos todos. Conto só uma.
Vamos até Luanda, 1970 ou 1971. Havia guerra, não é verdade? Eu já lá tinha andado, o Troufa andava. E estava ele, uma noite, de oficial de dia num quartel a que, se a memória não me falha, chamavam Agrupamento de Engenharia. Chefiado, vejam lá, por Vasco Gonçalves. Sim, esse.
Com pena do Troufa, arrimei-mne ao estabelecimento levando à ilharga umas bondosas, umas simpáticas, mais umas garrafas. Tudo já muito bêbado. Mais ficaríamos, quando o Zé nos recebeu de braços abertos. Digamos assim.
Há mesmo que falar do que se foi passando, noite dentro? Será melhor não. Vamos, pois, ao final da história. À libertação, juro que breve, de todos os perigosos presos que o quartel ciosamente guardava, turras eméritos que nem queriam acreditar a) na quantidade de vinho ingerido por simpáticos & simpáticas, b) na liberdade caída do céu (já me imaginaram vestido de anjo? A mim e ao Zé Troufa-Real?
Acabou aquilo como? Em Conselho de Guerra, marcial sarilho que a guerra gania lá fora? Nada disso, muito longe disso.
Acabou em copos, como tudo acaba no Mundo Português. E o Zé (irreverente como sempre, amigo e talentoso como sempre) regressou à porta d’armas, com beija-mão se despedindo das audazes galhofeiras. Perdendo-se, digo eu, um péssimo oficial. Ganhando-se, dizemos todos, um talentosíssimo arquitecto. Um magnífico amigo, acrescento eu. Desses duma vida toda.
Nicolau Breyner
Actor. Realizador