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Jan 27

Cassiano Branco, o Arquitecto da Noite

“Cada edifício que vês é um homem que não vês.’

Louis Sullivan (1856-1924)

Conheci Cassiano Branco no início dos anos sessenta, no café Nicola, por volta da uma da madrugada, através do Gueifão Ferreira, seu colaborador e meu grande companheiro de desenho e das noitadas de então. Foi a meu pedido que me levou a um dos encontros de rotina que àquela hora costumavam ter, para conversarem sobre o trabalho que se estava a desenvolver no atelier. Fiquei impressionado pela figura do Mestre. Grande, imponente, muito bem vestido, à moda antiga, e de chapéu. Eslava rodeado de amigos. Ali, encontrava-se normalmente àquela hora com companheiros de ideário clandestino, da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Artistas, homens de leiras, colegas (muito poucos), gente “maldita”, suspeita e incómoda ao regime. Todos tinham um ponto comum, uma certa e discreta marginalidade dentro do sistema social estabelecido.

Nesse tempo, quer na Escola Superior de Belas-Artes, que frequentava e que já incluía professores que constituíam as vanguardas de então, fanáticos arautos do “movimente moderno’ e que hoje oportunisticamente embandeiram em arco Cassiano Branco, quer nos ateliers de então (salvo raríssimas excepções) por onde a minha geração de escola passou, “a vender a mãozinha” muitas vezes a troco de vícios que ainda hoje se manifestam em projectos que se fazem, esqueciam-no ou criticavam-no negativamente. Chamavam-lhe ironicamente o arquitecto “tomarense” dos “patos bravos”, pelo tipo de clientes que tinha, mulherengo, pelas suas ligações amorosas e invejável virilidade sexual, boémio e marginal, pelo ritmo do seu curioso quotidiano, pois trabalhava e convivia de noite, deitava-se ao amanhecer e dormia até tarde. Há quem diga, por graça, que Cassiano Branco tomava o pequeno-almoço ao meio-dia, almoçava às oito da noite e jantava à uma da madrugada no Nicola. Talvez por isso não se tenham lembrado dele, nos anos cinquenta e sessenta, nas “distribuições” dos projectes para Olivais Norte, Olivais Sul, Cheias e tantos outros sítios…

Profissionalmente, Cassiano Branco dividia a sua actividade entre a Junta Nacional do Vinho (dia) e o seu atelier (noite), que era também a sua casa. Tudo estava próximo, entre o Largo do Rato e a Rua Castilho, o que não o preocupava porque gostava muito de andar a pé. Para as grandes distâncias ou pressas, andava de táxi. Tinha mesmo um motorista amigo que, todas as noites, o ia buscar ao atelier para o levar ao Nicola.

Não era um grande comedor nem bebedor, mas tudo tinha que ser bom. Fumava muitíssimo e ele próprio fazia os seus cigarros pacientemente, de mortalha. Quanto a clientes particulares, eram os possíveis. As “vanguardas” profissionais não lhe davam muita importância, e até o esqueciam, se fosse caso disso. Prudentemente não entrava em polémicas, nem se sujeitava a grandes jogos abertos. A clandestinidade maçónica conferira-lhe uma disciplina de vida e uma forma de estar no mundo muito discreta. Dava-se com pouca, mas notável gente, interessada na sabedoria, na beleza e no debate fraterno das ideias. Era tolerante nas suas relações, muito exigente consigo próprio, principalmente no trabalho. Quando era fundamental, aparecia a público na defesa das liberdades. Muito culto, liberal, requintado nas atitudes e sempre apaixonado.

O seu atelier não era grande, ocupava o rés-do-chão de sua casa. Tinha um ambiente artesanal, com poucos estiradores, meticulosamente organizado à sua maneira. Trabalhava num grande estirador onde desenhava os projectos de uma forma ritualizada com “T” e esquadro de madeira, à boa maneira antiga e com lápis “wolfe”, que afiava a canivete e colocava disciplinadamente sobre o estirador como um exército. Preocupava-se muito com o aspecto dos desenhos. Os projectos eram desenvolvidos e desenhados por ele até ao mais pequeno dos detalhes. Era rigoroso a desenhar. Tudo tinha de ficar certo e perfeito. Assim confirma a sua herança desenhada e construída.

Não recorria regularmente a colaboradores. Não necessitava. Personalizava possessivamente a sua obra através dos seus próprios desenhos.

Acompanhei e até ajudei, num desses raros momentos de trabalho conjunto, um dos seus colaboradores — o Gueifão Ferreira — através do qual, como já referi, conheci Cassiano Branco. Davam-se bem, por feitio, por compatibilidade de ritmos de vida e, fundamentalmente, porque desenhava muito bem a “wolfe”. Tinham-se conhecido na Junta Nacional do Vinho onde ambos trabalhavam. Vê-los desenhar frente a frente no atelier era espantoso. O mestre Cassiano Branco sentado ao estirador, com o seu ar distinto, muito bem engravatado, de camisa não arregaçada, suspensórios à vista e por vezes de chapéu, entretinha-se a desenhar, a aparar os lápis, a fazer cigarros e sempre a conversar, vendo o trabalho evoluir nas mãos do Gueifão, no estirador em frente, voltado para ele, cujas instruções cumpria escrupulosamente, já que o respeitava e admirava como mestre na arte de desenhar e como homem modelo de vida. As sessões eram interrompidas ritualmente à meia-noite, para o bifinho e o cavaqueio da ordem, no Nicola.

Gostava de tudo o que era bom e bonito. Batia-se por isso. Em cima do estirador, na mesa do café, na cama… tentava sempre fazer o melhor. Despertou paixões de lindas e notáveis mulheres, cuja relação considerava necessária para a sua criatividade.

Deixou uma grande e oportuna obra de arquitectura. Podia ter sido mais bem aproveitado. A escola de arquitectura de Lisboa excluiu-o, perdendo-se o grande pedagogo que era. A cidade de Lisboa perdeu também a grande oportunidade de se qualificar com mais obra sua, principalmente nas novas zonas de Olivais e Cheias onde a sua participação foi intencionalmente esquecida não só pelos responsáveis políticos da administração da cidade, como pelos próprios colegas que com responsabilidade a serviam.

Cassiano Branco é, para além da sua obra, uma referência. É mais um exemplo que nos fica, de louvar os mortos depois de mal­tratados em vida…

 

Troufa Real
(in Cassiano Branco Uma Obra para o Futuro. Câmara Municipal de Lisboa / Pelouro da Cultura, 1991,
1ª Edição, Lisboa, 60-65)