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Jan 27

Júlio Pereira

JÚLIO PEREIRA, morreu no dia 13 de Dezembro último no Hospital de S. José, em vésperas de fazer mais um aniversário. Foi uma brutal surpresa. Nasceu em Lisboa a 24 de Dezembro de 1922 na Rua do Cruzeiro, na Ajuda. Infeliz­mente, não lhe podemos oferecer a festa que ritualmente todos os anos lhe fazíamos no atelier da Rua da Horta Seca com prendas, bolo de anos e tudo.

Pintor maldito de grandes escândalos e discussões públicas, amado e odiado si­multaneamente.

Grande jogador de xadrez de preferência no antigo Monte Carlo ou no Ateneu.

O seu dia a dia repartia-se entre a Colina da Sé (sua casa) e a do Chiado.

Conhecia tudo e todos, tinha preferência pelas montras das livrarias (gastava fortu­nas em livros). Tomava a sua bica do meio-dia com um grupo de velhos amigos na Brasileira. Quase sempre almoçava no Jaime do Bairro Alto, quando não estava zangado com ele, onde se batia à sexta-feira com uma pratalhada de bacalhau com grão. Às segundas preferia juntar-se ao Sá Nogueira e à Alexandra numa tasca das Taipas.

À tarde ia até ao Clube da imprensa onde normalmente discutia com alguém, ou mesmo insultava, sempre por questões de arte. de mulheres ou da politica corrente; estava sempre do lado das minorias: O eléctrico “Prazeres 28” era o seu trans­porte preferido (entre colinas).

Gostava todas as tardes de passar pelo meu atelier para mostrar os seus últimos desenhos, (elaborados na véspera ou du­rante a noite) contar as últimas intrigas ou mais urna aventura de mulheres e para dormir um bocadinho na paz do silêncio, numa cadeira de balanço que proposita­damente lhe arranjamos para o descanso e para ter junto de um candeeiro de latão que lhe tínhamos oferecido, faz agora alguns anos como prenda de aniversário. Às vezes aproveitava para fazer uma partidinha de xadrez (a sós) num tabuleiro azul que lhe preparámos exclusivamente para se en­treter e estudar jogadas. Ultimamente almoçava numa tasca da rua 1ºDezembro que segundo a Marília, escul­tora amiga, foi onde se matou com as gor­duras dos petiscos.

Para nós, que gostávamos muito dele e para além do grande amor que nos ligava con­siderámo-lo sempre como um dos grandes Desenhadores Expressionistas do mundo.

A sua série de Capricórnios eróticos é notável. Os seus retratos impressionantes. Na pintura o seu percurso situa-se por um lado, no universo abstracto, inconfundível pelo seu jogo de geometrias puras, de triângulos, quadrados e circunferências-segundo cabalas de composição e de traçados {que importa estudar) e que ine­vitavelmente tinham a ver com a sua grande obsessão pelo número, pela geometria e pelo xadrez que tanto praticava. As cores utilizadas eram puras mas trabalhadas segundo também uma escala ritualizada de grandes contrastes e regras pintados de uma forma ritmada dirigida e encorpada. Por vezes usava a colagem. Por outro lado tinha uma outra pintura cujo discurso era nitidamente figurativo, de grande gestualismo expressionista.

Tinha o hábito de “treinar” o Desenho e a Pintura, recorrendo a temas de grandes mestres da pintura do passado, que gosta­va. Obsessivo pela pintura flamenga, van­guardas socialistas, construtivistas e curio­samente obstinado pela figura e obra do Picasso com quem sempre se identificou, e que encarnava nas suas discussões, considerando-se muitas vezes melhor que ele o que por vezes tinha razão. Nunca se quis vender aos “marchans”, que o tratavam sempre mal e a quem cora­josamente também soube retribuir na mesma moeda Tentaram-no fazer esquecer, para o retirarem do “mercado” da cultura corrente e banalizada, o que foi bom. Por isso é que ele próprio fazia o seu negó­cio da sobrevivência. Batia às portas dos amigos, dos arquitectos que gostava e que o iam aguentando como podiam. O Tainha, o Taveira, eu próprio tivemos sempre essa sorte.

Conviveu com Cassiano Branco, no Nicola nos velhos tempos e com o Segurado, na Brasileira.

Fez parte do grupo do Hogan, Guilherme Parente. Sérgio Pombo, Virgílio Domin­gues e da Teresa Magalhães tendo mes­mo com eles constituído o grupo de­signado pelos 5+,que se passeou pela Áustria de autocarro onde aban­caram na casa do Vitorino de . Almeida quando era Adido Cultural.

Era casado há 42 anos com a Fernanda mulher simples mas notável, paciente e inteligente que sempre o soube aguentar no mundo fascinante e difícil das suas grandes paixões. A gata lá de casa era a rainha, tudo lhe perdoava.

Pintava de noite até de madrugada, levantava-se ao fim da manhã e depois era o ritual da Cidade de Lisboa. Só deixou de ir ao Monte Carlo depois das obras e do desastre do Monumental.
No dia treze de Dezembro, número que detestava, deixava milhares de desenhos, pinturas e escritos escondidos secretamente em sua casa-atelier que ficariam à sua espera, para sempre confiados à Fernanda a sua grande companheira e à gata. Os amigos agora choram e recordam a sua presença. Os inimigos terão que chupar a sua imortalidade. Estamos juntos. Júlio,  vamos eternizar a tua obra.

 

Troufa Real Prof Arquitecto
Câmara Municipal de Lisboa, Agenda Cultural
Maio 1994