Dimensões: 151x100mm
Jan 13
Troufa Real, 1948
Jan 12
Carlos Lança – Arte Pública & Intervenção Urbana, 1997
Texto introdutório do Prof. Arquitecto J. Troufa Real
A Carlos Lança
A sua paixão pelas artes é conhecida.
As suas aventuras através do Desenho, da Pintura, da Escultura ou da Arquitectura Monumental e outras intervenções na área Arquitectónica e Urbanística, os seus objectos inventados para praças e ruas a favor de ambientes mais qualificados, os seus jardins, coretos e candeeiros, a sua poesia, as cartas para os amigos, a sua luta pelos direitos dos artistas, na defesa de valores humanos sagrados da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, fazem dele hoje um ser singular.
Em tudo que se envolve é com dedicação apaixonada. Tudo transforma em “exercício” de inteligência, de cultura e “sabedoria” de beleza, no sentido mais filosófico.
Meticulosamente, confronta contradições, conflitos do mundo das ideias com a razão da tolerância; trabalha com a geometria pura, a sagrada e a simbólica. As suas composições. Em todas as artes que se envolve, comprometem-se intencionalmente, culturalmente, em discursos diferentes. Com uma ternura de cerzideira, o que por vezes se torna perturbador. Autor de grande consciência interior, de grande compreensão por tudo que “chegou” até ele (e foi muito…) nesta viagem da vida sem princípio, sem fim… A sua Arte é singular por isso. Denuncia convicções, regras, realidades diferentes, aparentemente em conflito, sempre num subtil convívio. Recorda os “cadáveres esquisitos…”. A força do seu combate leva-o a defender a causa de todos os artistas. O Autor é a autoridade, como afirma Herberto Helder.
Calos Lança é uma referência na terra dos homens, pela sua Arte, pelo seu combate…
Aqui fica a minha humilde homenagem.
Troufa Real Prof Arquitecto
Setembro, Lisboa. 1997
Jan 10
Um relógio para a Casa de Fernando Pessoa
O convite poro a invenção de um relógio para a Casa de Fernando Pessoa, nasceu de uma conversa dos meus queridos amigos Dr. João Soares e Lamartine Lodeiro tendo em atenção a série de novos equipamentos e objectos que já estavam a ser estudados por outros criadores. Aos dois não posso deixar de agradecer a lembrança, porque sem essa vontade não teria sido possível tal aventura, dando assim uma certa continuidade à pequena série de relógios de pulso que tenho vindo a desenhar para algumas nobres causas, como o “PSwatch” para as legislativas de Jorge Sampaio, o “Rebeldia” para o Grémio Lusitano ou o da “Palmeira” em homenagem a Lorca para uma campanha contra a droga.
Desta vez o relógio seria de parede, muito maior e com um objectivo completamente diferente. Um relógio homenagem a propósito de um Fernando Pessoa que em dada altura, num célebre artigo publicado no Diário de Lisboa em 4 de Fevereiro de 1935 deu um grilo de Uberdade e de protesto (mais um), contra o projecto de lei do Senhor deputado José Cabral sobre as “Associações Secretas” que viria a originar a proibição da Maçonaria em Portugal. Um texto notável que se recomenda a leitura.
O Desenho do Relógio teve a sua motivação óbvia, no imaginário da geometria sagrada no “Templo”. A Luz (contra as trevas), a SABEDORIA, a FORÇA, e BELEZA. Da cabala do pentágono na sua ordem numérica e geometria, à ordem do TEMPO das horas, dos minutos e dos segundos. 11 — 12 um pouco à maneira de Almada com o 1 + I = 1, que também se recorda e este ano se homenageia.
O mostrador representa o Sol, com seus doze raios flamejantes (horas). A semi esfera central recorda a Estrela da Vida. O Pêndulo de grande dimensão resulta do Triângulo Sublime do Pentágono.
Todo o Desenho (Sagrado) a Côr e os Materiais na tradição do Barroco representam a Mudança, recorda Galileu, Marquês de Pombal, o liberalismo, a Primeira República, o 25 de Abril. As cores situam-se entre o ouro e o azul celeste. Os materiais: o Sol em talha dourada, à maneira antiga, a esfera em vidro de Morano e o pêndulo em metal lacado. A produção e o estudo dos mecanismos teriam que ser realizados por alguém que garantisse toda a qualidade não só de funcionamento mas também de natureza plástica. Infelizmente nesta matéria não foi possível encontrar a resposta desejada nos artesãos portugueses. Por escolha do Lamartine, pelo cuidado que sempre impõe a todos os objectos e equipamentos a que se liga apaixonadamente (como é o caso) e dadas as suas ligações culturais e comerciais a Itália, entregou o trabalho a um dos notáveis artistas e coleccionadores de relógios, o Giuliano Bettinzolli, da Continuità, de Bolonha, com quem tivemos a oportunidade de conversar sobre o relógio e com o qual, diga-se a bem da verdade se interessou. Esperemos agora os resultados… Serão produzidos apenas dois exemplares de parede (dois metros de altura) que se prevê estarem concluídos em ‘Junho do próximo ano. Admite-se a hipótese de reprodução de cópias reduzidas para produção industrial.
Brevemente o Giuliano virá a Lisboa porá trabalharmos e conhecer o local.
Troufa Real
Professor Arquitecto
Jan 10
O Arquitecto Vasco Vieira da Costa
Há bem pouco tempo no Porto faleceu Vasco Vieira da Costa.
Morreu um amigo, um pedagogo, um «mestre» da arquitectura em terras, de África; com 71 anos de idade, desgostoso, muito cansado e doente apenas deixara Angola (Luanda).-terra onde vivia e queria morrer para se vir tratar em Portugal.
Personalidade bem conhecida de todas as gerações de arquitectos que passaram por Angola ou se interessavam pela arquitectura da África Tropical.
Era uma «referência» obrigatória no roteiro da cultura dos arquitectos em África. Dal que Louis Kahn, aquando da elaboração do projecto do Consulado dos Estados Unidos da América (1963). o ter visitado e passado longas horas em conversa.
Estar com ele ou ver a sua obra aprender qualquer coisa de diferente do que se passava na Europa ou noutra parte do mundo ou mesmo, â sua própria volta, lá em Luanda, dado que o que ele fazia de facto era outra coisa que nada tinha a ver com a arquitectura que se produzia «normalmente» segundo os «padrões» ou «normas» da Metrópole e que brutalmente era implantada em terras onde a história era outra, e onde muita gente não sabia entender ou não queria compreender (por outras razões, claro!…).
Vasco Vieira da Costa estudara arquitectura na Escola do Porto, fizera Urbanismo em Paris e trabalhara no Atelier de Le Corbusier (que lhe deixou a marca) na década dos quarenta, portador de uma carga, cultural marcadamente europeia e animada pelo movimento moderno, profundamente conhecedor da «sua terra» Angola, acabaria por ser dos raros arquitectos que ao intervir na África Tropical conseguiu dar saída aos muitos dos problemas de relação com o «meio» (que então se levantavam) no acto de fazer arquitectura, sem trair a didáctica do movimento moderno (por vezes exageradamente) e sem ofender a terra onde intervinha.
Exigente na prática profissional, rigoroso no exercício do projecto, escrupuloso na ética profissional e intransigente nos valores e nos princípios que defendia, Vasco Vieira da Costa esforçava-se nervosamente por transmitir às gerações mais novas que passavam pelo seu pequeno atelier em Luanda (e eu fui um deles) tudo que aprendera alertando todos os cuidados e cautelas (pedagogicamente) de que um arquitecto se devia reunir por forma a poder actuar sem os riscos (que ele sofrera e n3o •foram poucos…) numa terra tão difícil de exercer a profissão como era aquela naquele tempo. Muitas vezes o ouvi dizer «que a maior sorte que tivera na sua vida fora nenhum dos seus filhos ter seguido arquitectura».
De facto ele sabia-o e tinha-o sentido na pele. Nos primeiros embates da sua vida com a difícil máquina municipal da antiga colónia (por vezes ridícula), normalmente «crivo» fatal do trabalho de um arquitecto, que ele resistiu, combateu e , no nosso entender, saiu merecidamente vitorioso,
Foi e continuará a ser um exemplo para todos nós. Vale a pena ir a Luanda conhecer a sua obra cujo significado e qualidade são inegáveis. Pode-se destacar e apenas como referência, o Mercado de Quinaxixe, o Laboratório de Engenharia de Angola, a Sede da Associação dos Naturais de Angola, o Edifício Sécil. a Escola Inglesa, o Edifício no Largo da Mutamba, hoje Ministério das Obras Públicas, conhecido pelo «Pombal» devido à forte presença de uma «grelha» contra a insolação.
É importante referir o seu empenhamento e interesse na defesa da classe dos arquitectos tendo sido o primeiro presidente da Direcção de Secção de Angola do Antigo Sindicato dos Arquitectos, Secção que viria a ter uma forte acção na criação da Escola de Arquitectura de Angola, da qual até à sua morte fora o seu responsável, dinamizador e professor.
Angola perdeu assim um dos seus-importantes quadros e Portugal um grande amigo. Da nossa parte resta–nos a saudade, a gratidão, um caminho a não esquecer…
Troufa Real Prof Arquitecto







