Jan 03
Revista Novafrica, 1992
Dez 28
José Deodoro Troufa Real
Nunca tendo sido seu aluno, há muito que tenho o prazer de o ter como professor.
Foi como professor que me recebeu, quando durante o curso trabalhei a meio tempo no seu atelier. À época situado num palácio da Rua da Emenda, o atelier falava em seu nome na sua ausência. Espaços abstractos abriam passagem até espaços simbólicos, paredes cobertas de desenhos, do próprio e de amigos, presentes que sempre iam chegando. Muitas maquetes, modelos velhos, novos e em construção, maquetes inteiras e partidas, pedaços que construíam novos “cadavre exquis” (como só voltei a ver muito recentemente no “Sou Fujimoto”). Aprendi aqui o trabalho material com as maquetas como algo indissociável do processo de investigação de projeto.
Foi como professor que me acolheu, quando comecei a trabalhar no seu atelier, após terminar o curso e em pleno processo de iniciar a EMBAIXADA. Ele percorria as salas de trabalho falando sobre tudo, e mais do que esperar o fim de um trabalho desejava sempre aprofundar os processos. Desesperava-se quando alguém não entendia a arquitetura como algo em contínuo, lento, constante, uma linha que se risca sobre os traços que se desenham sobre a outra linha. Como na arqueologia. O vegetal sobre o desenho CAD, uma transmutação genética gráfica, só se parava de desenhar depois da obrigação de entregar superava. Aprendi aqui a nunca confundir um processo burocrático com um ato de arquitetura.
Foi como professor que me convidou, anos mais tarde, para com ele “revolucionar” o atual espaço da Virtual Fundação Troufa Real – Ukuma. O amor e o conhecimento do legado em que intervíamos balançavam sem cair no pudor de atuar, graças a ele. Desenhava nos seus famosos cartões métricas complexas, figuras que lutavam em conquista de espaço, pormenores. Desenhava igualmente com o martelo, linhas sobre pedra bruta, proporções, relações que ninguém antevira, com a naturalidade e intuição poética próprias da experiência consolidada num elevado corpo de saber teórico, magistratura portanto, mestria. Aprendi aqui que mais do que o passado, “o futuro também é património”.
Professor Troufa Real, nunca tendo sido seu aluno posso afirmar sem isenção, foi um grande professor e será sempre um dos meus mestres!
Paulo Goinhas
Arquitecto
18.12.2013
Dez 23
Irreverente, desconcertante e sempre imprevisível
Não raras vezes tenho dado por mim a interrogar-me sobre desde quando, e como, conheci o Zé Troufa Real. Sei que já passaram umas largas dezenas de anos mas nunca consegui chegar à conclusão de quando foi. A análise dos nossos trajetos de vida indiciam uma pista mas uma coisa é certa devem-se ter cruzado fisicamente em Lisboa em finais dos anos 50, inicio dos 60, ocasionalmente através de amigos comuns. Sou naturalmente extrovertido e a minha natural sociabilidade sempre me levou a considerar que, parafraseando um ditado popular, “ Os amigos são como as cerejas, vêm uns atrás dos outros.”
Sou oriundo do Colégio Nuno Álvares,de Tomar, onde fui aluno interno e conheci uma multidão de colegas, número que sempre considerei diminuto e deu origem a amizades que felizmente continuo a cultivar sempre que posso. Chegado a Lisboa fui para o Instituto Comercial, na altura na Rua das Chagas ao Camões, e depois para Económicas, em São Bento. Na altura estudava-se nos Cafés e, até pela localização destas Escolas acampei na Baixa onde pontificavam os Cafés Paladium, Martinho, Nicola e o Chiado, a que pomposamente chamávamos A Real Academia do Chiado. Eram verdadeiras Tertúlias a que muito devemos a nossa Formação Cultural e Política, onde aprendemos a crescer como Pessoas com mais ou menos interveniência mas sempre com o despertar para a cultura dos Valores Éticos que nos levavam à consciência da necessidade da Luta pela Liberdade, como forma de o HOMEM o ser em toda a sua Plenitude.
Quando fechavam estas “ Universidades “ era vulgar continuar a discussão pela noite dentro no Largo do Chiado no Camões ou no Rossio, conforme a zona de pernoita dos intervenientes, e semanalmente resolvíamos os problemas macroeconómicos, ou de que natureza fosse, de Portugal, da Europa e do Mundo, problemas que na altura nos atormentavam e dos quais, infelizmente, a maior parte ainda continua por resolver. Ainda bem que assim era pois com a nossa juventude, ainda que com a correspondente ingenuidade, mal seria não estarmos disponíveis para discutir e querer contribuir para a resolução desses problemas. Felizes dos que ao longo dos tempos conseguem manter esta postura, tirando partido dos desaires sofridos como forma de aprendizagem e incentivo para continuarem a lutar por aquilo em que acreditam.
Também semanalmente matávamos o Salazar e a Pandilha dos seus Acólitos , responsáveis pelo nosso atraso e tanto sofrimento. Verdade seja dita que eram na verdade resistentes pois ainda que mortos semanalmente perduraram por tempo enraivecedoramente longo e desgastante.
Com tantos amigos do Colégio e das muitas Faculdades , já que os habituais TERTULIANOS eram oriundos dos mais “variegados” Cursos e Saberes, dificilmente não será destas andanças o nosso conhecimento que mais tarde se tornou na amizade que se tem alicerçado ao longo de tanto tempo. Acresce que mais tarde em Angola constatámos a quantidade de amigos comuns que participavam nestas lutas, nas Tertúlias e até na frequência da denominada Casa dos Estudantes do Império, verdadeiro alfobre dos Políticos e Lutadores que direta, ou indiretamente, vieram a concretizar os movimentos que por tanto tempo esperaram.
O meu primeiro contacto com Angola foi integrado num contingente militar. Conheci na altura uma realidade para mim completamente desconhecida que me marcou de forma intensa e indestrutível pelos conhecimentos que adquiri e, para mim de importância, a sensação de utilidade até na realização das coisas mais simples. Ainda conheci uma Luanda que se foi modificando com a chegada de mais tropa, que se desenvolveu mas deteriorando a vida simples que a caracterizava: a simplicidade na maneira de vestir onde imperavam os calções, camisa ou balalaica e muita sandália, o uso do Vale que hoje corresponderia ao Cartão de Crédito e era utilizado nos lugares que frequentávamos pela cidade, natural e regularmente pago no final do mês e uma relação sadia e fraterna que transformava as nossas relações num verdadeiro prazer e os os amigos em verdadeiros familiares.
Nos últimos 9 meses de comissão a Unidade onde era Oficial, comandada pelo Capitão Melo Antunes grande amigo com quem tanto aprendi, acompanhei ao longo do resto da sua vida e tanta saudade nos deixou, fomos colocados no Lubalo, na Lunda. Foi uma nova surpresa que muito me empolgou. Chamou a minha atenção o facto de ver muita gente sem pernas o que me levou a procurar saber se o seria devido a alguma doença característica daquela zona. Vim a saber que não se tratava de doença mas fruto de ataque de crocodilos, quando atravessavam os rios. Porque estávamos em zona de descanso a aguardar o final de comissão e respectivo embarque, com o apoio do meu amigo Cap. Melo Antunes e do Snr. Brigadeiro Silva Cunha, na altura Governador Militar da Lunda, grande Senhor de postura e ação que muito me surpreendeu e que curiosamente também se revelava na sua maneira de caçar – usava mira telescópica para identificação da peça, não abatia fêmeas, retirava a mira e só atirava ao macho se o animal tivesse uma hipótese de saída- propus-me a fazer uma picada entre o Camaxilo e o Cuilo fazendo pontes, claro que artesanais, nos rios que ia atravessando. Obtida a autorização vivi a maior parte dos 9 meses com uma seção e 50 trabalhadores contratados em acampamento itinerante ao longo da picada que ia fazendo. Quando vejo as fotos, que ainda guardo, recordo com saudade a vivência desses meses e a lembrança do muito que aprendi com todos, a beleza das danças, da arte Quioca e as fantásticas pessoas com quem convivi, verdadeiras figuras de dimensão humana merecedora de personagens de contos histórias, que faria com imenso gosto se tivesse qualidade para as contar.
Voltei a Lisboa em finais de 1965 e não resisti á atração que me empolgou. Casei e já com os 3 filhos escolhi Luanda para trabalhar, para onde voltei em 69 para o desempenho de funções na RENTA- Organização de Empresas. Fui encontrar Uma Luanda com uma vida já diferente e até algum interessante Movimento Cultural que, para além de motivador de algumas idas de Companhia de Revista e Teatro de Lisboa tinha Espectáculos com Desempenho e Encenações de Artistas de Luanda. A determinada altura estava em Luanda uma Revista que tinha o Nicolau Breyner como cabeça de cartaz e ao mesmo tempo um espectáculo com a Eunice Munhoz. Ficaram alojados em casa do Troufa Real e da Fátima, que eu já conhecia de solteira. O NICO era meu amigo desde que cheguei a Lisboa com muito convívio numa Pastelaria da Rua do Loreto, pouso habitual do seu grande grupo de colegas do Conservatório, e que eu também frequentava com Colegas do Instituto Comercial. A Eunice era casada com o António Barahona, que eu conhecia de outras Tertúlias da época e que já nessa altura escrevia Poesia e Teatro com umas incursões pela Pintura. Com todas estas ligações comecei a passar os tempos livres lá em casa , mesmo para além do tempo que em que estiveram em Luanda.
Entretanto o Troufa Real aglutinava um vasto grupo ligado às Artes Plásticas, grupo que passava longo tempo de salutar convivência, ainda que muito discutida, com igual frequência de reuniões em sua casa. Recordo desse grupo a presença assídua de jovens como a Gracinda Candeias, o Carlos Fernandes e o Puto Ferrão que infelizmente já nos deixaram, do Zé e Clotilde Fava e do Taquelim que para além da Arquitectura e Pintura também se notabilizou pela recuperação da traineira que lhe evocava a sua Baía de Lagos, traineira que e veio mais tarde a ser do Zè Real. Quando o Zé criou e dirigiu de Luanda lembro-me também de aparecer o Carlos Lança, que me fascinava pela segurança e firmeza do seu traço, mesmo quando desenhava um círculo. Também o conhecia por ser irmão do Adalberto, meu colega de Económicas, que integrava um grupo de maior convivência onde também se incluía o Ernâni Lopes.
Mais ou menos na altura em que mudei para o desempenho de funções na Direcção de Pessoal e Relações Públicas da TOTAL , em Luanda, vagou um Apartamento no prédio em que vivia o Zé. Claro que fiquei com ele e iniciou-se uma nova etapa que não esqueço na nossa relação. O prédio era no Prenda, com vista deslumbrante sobre a Baía e o Mossulo, com dois andares de Apartamentos em Duplex com óptimas e generosas divisões e com poucos e bons inquilinos por andar. Era difícil chegar a casa porque íamos parando pelos vizinhos e por vezes com paragens alongadas pela conversa e pelo copo. Foi aí que criámos o hábito de aos sábados termos Feijoada em minha casa, Mezungué em casa do Troufa e arroz Chau Chau em casa do seu primo Auto. Não era necessário convite pois era um prazer receber os nossos amigos. Por vezes eram bastantes.
Fui entretanto viver para a Açucareira Bom Jesus junto do Rio Quanza, na margem oposta à Reserva de Caça da Quiçama, no desempenho das funções de Director Administrativo. Aí acontecia de tudo com o nosso Grupo de Amigos. Um dia em que estive uns dias em Nova Lisboa e Silva Porto quando cheguei com a Zélinha, minha mulher, tivemos a grata surpresa de ter em nossa casa o Barahona com a Eunice e a filha , na altura ainda muito criança. Tinham voltada a Luanda para um espetáculo da Eunice e como tinham gostada do estar no Bom Jesus resolveram visitar-nos. Como não estávamos e souberam que estaríamos para chegar, ainda que não soubessem quando, instalaram-se e e esperaram por nós. Era o espírito da nossa maneira de estar.
Na época de Cacimbo não havia o hábito de ir à praia, o que dificilmente demorei a entender por nessa altura a água continuar mais quente do que no Algarve em Agosto. Então, claro que sem aviso prévio, apareciam os nossos amigos ao fim de semana, em grupo alargado de casais e respetivos filhos e por vezes em coincidência aparecia também um grupo com origem de base em antigos colegas do Colégio e com quem felizmente continuo com relação muito estreita. Curiosamente estão de novo ligados a Angola. O Pedro Moreira que também casou com uma minha prima era o Secretário da Camara de Viana , vive cá mas a filha Elisa, nascida em Lunda e que lecionou na Universidade Lusófona está como Vice Reitora da Universidade Lusíada de Luanda. O Mário Loureiro que esteve em Angola em comissão do Quadro de Administração Militar, que se reformou-se como Major para se dedicar à actividade privada tem, nas Caldas da Rainha, a FRAMI que é uma Empresa de Produção de Conservas Alimentares Sem Frio. também voltou a estar ligado a Angola, onde está a investir e a construir Armazéns de Distribuição precisamente no Bom Jesus em terrenos na Margem do Rio junto ao antigo edifício dos Escritórios da Açucareira.
Era divertidíssimo e como não havia Supermercado a solução era recorrer à compra de um porco, tarefa nem sempre fácil uma vez que a posse de cabeças de gado era indicador de prestígio pessoal, mas dadas as boas ligações que tinha com os empregados e o seu número, 2000, havia sempre quem não recusasse a venda do animal. Depois de morto não tinha tempo de arrefecer era pendurado numa Mangueira do pátio, cada qual ia cortando sem a preocupação de saber se era boa para grelhar ou para outro tipo de confecção, ia grelhando e no final restavam a cabeça e as patas porque os ossos eram um bocado duros. A sobremesa, que a miudagem não dispensava, eram os doces que traziam e a belíssima fruta tropical que abundava no quintal. Vinho? Muito pouco pois a carne era amaciada na boca com muita Cuca e Nocal. Os Licores, Gin e Wisky era o que se arranjava através da Tropa e o Angolano SBEL, fabricado no Lobito e que oS Sul Africanos bebiam sofregamente para se embezanarem mais depressa. Nem sequer mexiam como uma colher para libertar o álcool, como faziam alguns Portugas. Se hoje ainda se fabricasse seria uma boa medida ser dispensado pela Assistência Social aos idosos e desempregados, como forma de diminuir os Subsídios de Desemprego e de Velhice. Calhando ainda equilibrávamos as Contas Públicas.
O fim de tarde era passado no jardim vendo, aqui e ali, animais da Quiçama que vinham dessedentar-se no Quanza, e a contemplar o espetáculo único e inesquecível do Pôr do Sol Angolano. QUE SAUDADES.
Dispenso-me de referir os amigos comuns das nossas relações de Luanda, não por falta de interesse e de histórias espantosas mas porque alongaria um espaço,de que já estou a abusar. Era um grupo de pessoas nascidas em Angola ou que, , como no meu caso, enfeitiçados por África a escolheram como o seu local ideal de Trabalho. Quanto a mim a razão de , antes da Guerra Colonial, para trabalhar ser obrigatória a chamada “” CARTA de CHAMADA “” seria atitude tomada não por inconsciência mas de forma intencional pois, tal como nós, muitos teriam tomada a nossa de igual forma a nossa opção e estaria aberta a via que poderia levar a que se tivesse efectivado o Plano do General Norton de Matos. Quanta Miséria, Sofrimento e Mortes se teriam evitado.
Que me seja perdoado mas posso deixar de contar dois episódios desta estadia, que muito me marcaram.
O Clube Naval , era um espaço interessante e de qualidade, tinha um bom serviço de Bar e Restaurante que nos levava à brincadeira de dizer que era o (( TAVARES RICO de Luanda )).
Homem com trabalho muito válido na Restauração da Linha de Cascais , origem do nome que para sempre o individualizou, o JÚLIO da RONDA resolveu tomar uma medida inovadora em Luanda e ainda pouco habitual em Lisboa : contratou para o Clube Naval uma RELAÇÕES PÚBLICAS. Vinda de Lisboa, mocetona bonita, Estampa de Mulher, nada conhecia do meio Luandense. Um dia foi lá marcado um Jantar de Homenagem. Não sei se terá sido a sua estreia mas quando lhe aparece o Zé, como de costume de Balalaica, Calções e Sandálias, disse-lhe que não podia entrar assim e que o Clube estava reservado para um JANTAR DE HOMENAGEM ao Snr. Arquitecto JOSÉ TROUFA REAL. Claro que o Zé limitou-se a responder: — ENTÃO FAÇAM A HOMENAGEM –, virou as costas e foi-se embora. Calculam a confusão dos convidados à espera de um Homenageado que não aparecia.
O Zé andava habitualmente de Calção, Balalaica – que continua a usar – e Sandálias. Claro que, sem meias, andar sempre com os pés cheios da tão característica areia vermelha de Luanda. Na altura era Arquitecto do Quadro da Câmara Municipal e penso que dirigia o Estudo de Implementação do Plano de Urbanização de Luanda. Um dia, no final do Despacho habitual o Presidente da Câmara, Sá Viana Rebelo, diz-lhe : — O Snr. ARQUITECTO NÃO SE SENTE MAL POR VIR A DESPACHO DE SANDÁLIAS E COM OS PÉS TODOS SUJOS ? A resposta inesperada que o deve ter marcado foi: — NÃO Snr. PRESIDENTE. SÓ ME SINTO MAL E COM NECESSIDADE DE ME LAVAR QUANDO SAIO DE DESPACHO. —
Estas duas mostram o Zé Real mais coerente com a sua maneira de ser e com quem, ao longo de muitos anos de convivência, tenho tido tanta afinidade. Irreverente, desconcertante e sempre imprevisível é dos amigos com quem mais me me identifico, sobre tudo nas atitudes que toma e por vezes parecem ser de louco. só que a mim falta-me o Génio que ele esbanja em permanência , não só no seu trabalho como na sua maneira de estar.
Com tantos amigos comuns e vivências, que felizmente temos compartilhado, continuo a não conseguir saber como nos conhecemos. Não importa mas sei que a evolução tem sido assim:
ZÉ TROUFA / Arq. TOUFA REAL / Snr. Prof. TROUFA REAL / ZÉ DEODORO ( forma de tratamento que infelizmente já não compartilho com o nosso MQIr.!. e Bom Amigo JACINTO S. ). Um dia numa Sessão da FAO , já lá vão uns tempos, falei de Angola e sobre ti. No final o nosso Amigo SEBASTIÃO, de quem tanto gostamos, coma a sua benevolência e carinho , começou a tratar-me por Mano JÚLIO fazendo, sem querer, que com naturalidade tenha havido alteração para o nosso novo tratamento : passaste a tratar-me por MANO JÚLIO e tu, MMQIR.: e BOM ANIGO passa-te a ser o MANO ZECA.
Júlio Louro
11.12.2013
Dez 23
“Sedutor, Anarca, Ousado”
“No Troufa Real os seus defeitos são as suas qualidades. Não se trata de umas compensarem as outras, não, coincidem absolutamente.
Conheci-o quando o Centro Nacional de Cultura ensaiava os primeiros passos em democracia, ele regressado de Londres havia pouco.
O Centro Nacional de Cultura procurava afirmar “um outro conceito de cultura” (hoje ainda seu lema) e ele procurava o mesmo na arquitectura e na cidade.
Telefonei-lhe um dia, sem o conhecer, por ter lido umas frases suas com humor e acutilância, a saber se queria colaborar connosco. Exclamou que nesse mesmo dia tinha decidido que me ia telefonar. Levou-me logo a ver o seu belo espaço da Horta Seca em plena recuperação – o que, em tempo pós-revolucionário, era, se não ousadia, pelo menos forte originalidade.
Chegou a ser membro da direcção do Centro Nacional de Cultura. O seu conceito de lusitude aproximava-o do nosso esforço de tirar o pó ao orgulho patriótico.
Um tempo seguimos caminho juntos. O que eu apreciava era aquela loucura mansa. Deu-me a conhecer o Pancho Guedes, a pessoa e a sua arquitectura antropomórfica.
Rasgou no Centro Nacional de Cultura alguns horizontes, sobre a importância de ousar o novo na cidade e de submeter a arquitectura à medida humana.
Fomos continuando a cruzar-nos: no Largo das Belas Artes, em Macau, por aí. Sempre o mesmo. Sedutor, anarca, ousado. E com a dimensão pessoa e a dimensão espírito sempre presentes na sua obra de arquitecto-artista. Por isso aceitei com prazer o convite para participar na homenagem a este “arquitecto arrependido que queria ser marinheiro”.
Helena Vaz da Silva
Presidente do Centro Nacional de Cultura
Deputada do Parlamento Europeu
Dez 23
Capacidade de entusiasmar
Quando o Troufa Real chegou a Luanda, recém-formado em Arquitectura, nos idos de 1967, cedo me dei conta de que a Câmara Municipal de Luanda tinha adquirido para os seus serviços um elemento inigualável para a intervenção na cidade.
Dinâmico como só ele, com a capacidade de entusiasmar os colaboradores que ainda agora lhe conhecemos, foi fácil, por isso, ter a minha colaboração profissional, pois como fotógrafo profissional complementava o seu trabalho.
Assim, fiz com ele muitas viagens de helicóptero para fotografar não só os musseques de Luanda mas também muitas outras terras de Angola, que ali havia (e ainda há, claro) muitas coisas para desbravar e ordenar.
Do convívio profissional foi também fácil passar ao convívio pessoal, pois ele, como homem de cultura e com preocupações sociais, foi sempre um homem de acesso fácil. Com ele, e outras pessoas (muitas e de variadas origens) ligadas à cultura e à cidade, passei muitas horas em amenos bate-papos no Café Zero, na marginal de Luanda, onde, entretanto, se tinha constituído uma tertúlia mais taxativa do que expressa.
É com muito contentamento que continuo a contar com a sua amizade e com a sua ajuda nos momentos mais problemáticos da minha vida.
Fernando Chaves
Fotógrafo. Ex-proprietário da Colorama
Dez 23
Defensor dos direitos humanos em todas as latitudes
Ao longo destes anos tenho tido o privilégio de cultivar cumplicidades com este homem de Angola e África que se chama José Deodoro Faria Troufa Real, um cidadão de élite.
Desde que o destino fez cruzar os nossos caminhos na nossa Luanda natal, mais especificamente no bairro das Ingombotas, que tenho apreciado crescentemente as suas qualidades, das quais as mais notáveis, para além das suas aptidões naturais, continuam a ser a solidariedade e a fraternidade de armas.
Recordo muitos factos que me marcaram pela sua generosidade, abnegação e entrega, sobretudo no período que antecedeu a independência. Era um período de escolhas fáceis, quando bastava ser oportunista para fazer carreira. Mas o Troufa nunca abandonou os seus amigos. No período mais crucial, ele optou pela amizade, a lealdade e a fidelidade aos princípios, aceitando partilhá-los com homens como Gentil Viana, Liceu Vieira Dias, Fernando Paiva, Meneses Monteiro, Luís Carmelino Jota, Amélia Mingas, Maria do Céu Carmo Reis, Adolfo Maria e tantos outros, na época marginalizados e ostracizados, brindando-os com a sua solidariedade activa e efectiva, embora sabendo que ia prejudicar-se com isso.
Correu riscos, prejudicou os seus projectos profissionais, mas a sua consciência dizia-lhe que era necessário estar ao lado dos que sofrem e foi isso mesmo o que fez. Este é o homem que eu conheço. Pusilânime, sim, porque emotivo, mas de uma generosidade sem par, intransigente com as suas convicções e capaz dos maiores sacrifícios em defesa dos seus amigos.
Transpondo-o agora para o universo de Lisboa, capital das nossas culturas, cada vez mais mescla dos nossos povos, vejo o Troufa Real a calcorrear as ruas e os gabinetes, em defesa das primeiras vítimas do autoritarismo que se seguiu à independência de Angola.
Era necessário alertar a opinião pública internacional para as prisões dos seus velhos companheiros de luta e ele assumiu a sua condição batendo a todas as portas até à libertação de Gentil Viana e dos seus companheiros.
Fez esta campanha com lisura, transparência e sem revanchismo, sem cortar as pontes com o poder, assumindo que se tratava tudo de uma família e em família devia o problema ser resolvido.
Posição que faz, por outro lado, que tenha legitimidade o seu projecto de Angólia, sonho utópico da construção de uma nova capital para Angola, que poderia ter um papel fundamental na reconciliação nacional angolana, com o qual estou solidário desde a primeira hora.
Reportando-me à actualidade, continuo a encontrar-lhe o mesmo espírito de entrega, generosidade e abnegação. O Troufa Real continua teimosamente de pé em defesa de liberdades, direitos e cidadania, desafiando tabus, deuses e homens, entendendo que a vida não tem sentido se não for vivida desta maneira, um desafio que questiona todos os dias, preocupando-se com os outros homens.
Sinto-me lisonjeado por ser seu amigo e companheiro de luta. Homem de frontalidade rara, assume-se como defensor dos direitos humanos em todas as latitudes onde haja opressão, pobreza e miséria.
Carlos Belli-Bello
Embaixador itinerante do MPLA
Dez 23
Foi sempre entusiasmente colaborar com tão ilustre artista
Como Empresário Hoteleiro durante mais de 40 anos, com actividade desenvolvida em 4 continentes, participando em cerca de 3 dezenas de projectos de Hotéis, quer construídos de raiz, quer ampliando ou remodelando, tive a feliz oportunidade de trabalhar com muito bons Arquitectos, sem contar com os Professores, desta área, dos cursos que frequentei na “School of Hotel Administration” da Universidade Cornell, E.U.A.Durante centenas de anos os Hotéis podiam contar-se entre os mais belos edifícios do mundo.Mas os Hotéis não podiam ser considerados pelos Arquitectos, unicamente como um monumento, mas sim um edifício multi-uso que para uns seria “uma casa fora de casa”, para outros “um escritório fora do escritório” e para alguns um sítio para entretenimento ou local de celebração.
E aqui tinha de surgir, necessariamente, a verdadeira criatividade e talento do Arquitecto. Se é certo que os Hotéis podem ser considerados, por todo o seu charme, um fascinante negócio, não nos podemos esquecer que, na realidade, são negócios.Uma boa arquitectura pode dar ao Hotel uma forte personalidade, com promessa de serviço personalizado que atrai Hóspedes e os fazem desejar voltar.
Por isso mesmo a boa arquitectura deve continuar sempre envolvida com a indústria hoteleira, hoje considerada uma das mais importantes actividades a nível mundial, não só no que concerne à criação de novas unidades, mas também no que toca à sua renovação e restauração.A indústria hoteleira está em constante evolução e é hoje altamente competitiva, pelo que os Hoteleiros têm que colocar todos os conhecimentos e experiências postos à sua disposição para cativar e manter os seus Hóspedes. Uma boa medida do seu sucesso é determinada, sem dúvida, pela qualidade do seu serviço. Mas é, também, determinada pela sua arquitectura, decoração e funcionalidade, com espaços correctos, cuidadosamente planeados para satisfazer as necessidades humanas e o conforto. Não nos podemos esquecer que um Hotel é um lugar onde as pessoas podem viver, ainda que seja para uma curta estada.
Conheci o Arquitecto Troufa Real em Luanda (Angola) há cerca de 30 anos.
Com ele ali trabalhei em dois projectos. Um de remodelação e ampliação do nosso Hotel Continental e o outro na criação de uma grande área de “ressort” de nível internacional, ao estilo da famosa “Sun City”, da África do Sul. Localizada a poucas dezenas de quilómetros de Luanda, num local paradisíaco com uma extensa praia de águas límpidas e areia fina, seria constituída por Hotéis, casino, centro de congressos, golfe, marina, etc., etc.
Infelizmente, este apaixonante projecto, muito embora já em fase adiantada de estudo e com recursos financeiros assegurados, teve que ser abandonado face às novas realidades surgidas após o 25 de Abril de 1974.
Mais recentemente, em Portugal, tive novamente a oportunidade de trabalhar com o Arquitecto Troufa Real no projecto de um Grande Complexo Turístico que, embora esteja, ainda, em fase de estudo, deu para revelar, mais uma vez, o seu grande talento e criatividade.Por tudo isto, devo declarar que foi para mim sempre entusiasmaste colaborar com tão ilustre Artista, a quem presto as minhas muito sinceras homenagens.
Joaquim Paredes Alves
Empresário Hoteleiro Bailli-Delegado da Confraria Chaîne des Rotisseurs

