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Dez 22

Troufa Real. “O Cão Africano”

O melhor de Troufa Real é a sua paixão pela modernidade e pela mudança. Com uma atitude desassombrada, cumpre o mandato da arquitectura pós-moderna, cujas inconsistências põe criticamente a nu, denunciando as incursões doutros actores menores que usaram, e usam, o pós-modernismo como modo de encobrir a mediocridade e o conservadorismo.

O pior de Troufa Real é quando se assume, estartegicamente, como apocalíptico; é pior ainda quando isso se passa em projectos de estruturas permanentes.

Creio que ele próprio fica de consciência aliviada quando esses projectos não se realizam por força de obstáculos técnicos ou burocráticos. Fica aliviado e fica também com mais uma história para contar, como episódio polémico da teoria da conspiração que tanto gosta de cultivar, forçando um lugar na galeria dos nossos sublimes cabotinos.

É assim o Troufa Real quando, matreiro, se força a fugir das “tendências” para se proclamar como “facto”.

Alguns desses projectos surreais, pouco convictos  (que não queria que saíssem do papel?), foram, para nossa surpresa, realizados. Ainda assim, são envoltórios metafóricos e radicais de miolos bem comportados e previsíveis (monumentos ao império de três assoalhadas, navios de pedra à beira-rio…)

O melhor do melhor de Troufa Real está nesta sublimada contradição. Porque, afinal, acaba por correr os riscos dos apocalípticos, dos desalinhados, enriquecendo pelo excesso calculado uma tendência da Arquitectura que se opõe ao “high-tech” de catalizador e que contraria o minimalismo campónio das neblinas incolores setentrionais.

Grande virtuoso, de verbo torrencial e messiânico, crítico desbocado (feroz adversário: não convém estar no campo oposto ao seu); talento irremediável para o desassossego cromático soalheiro e mediterrânico (africano?), falta-lhe querer parar nos limites do admissível, porque então nos daria sempre o seu melhor.

Aí está o admirável Troufa Real, sempre na contramão para fazer mudar o sentido das coisas.

 

Daciano da Costa
Professor Catedrático Jubilado
09.2001