Jan 06

50 Anos de esquissos

Os desenhos produzidos no âmbito da Arquitectura são de muitas e diversas categorias e destinos, usando uma grande variedade de técnicas, de instrumentos e suportes, tendo em vista que abrangem um leque vastíssimo de intenções que se constituem como base e registo do acto de conhecer, sendo também elementos fundamentais da criação e dos métodos de plano e projecto, e um modo de comunicar a terceiros. Mas há que sublinhar que o Desenho, em Arquitectura, nunca se esgota em si mesmo, não tem autonomia, tem sempre um objectivo, uma utilidade, não podendo ser apreciado isoladamente como obra de Arte, apesar de integrar também uma parcela estética, não só porque é parte de um processo arquitectónico, como porque toda a actividade humana contém sempre uma vertente estética. Esta será uma das características da marca da Humanidade no Universo em que vivemos e que não teremos assim tantas dificuldades em reconhecer. Jean-Marie Schaeffer escreveu que “é incontestável que qualquer que seja o seu estatuto como produto humano, podemos instituí-la (uma máscara ritual) em objecto estético, simplesmente porque podemos abordar esteticamente qualquer objecto, incluindo um artefacto qualquer” (1).

Assim, como já foi dito, o facto de um desenho se inscrever no mundo da Arquitectura, levará sempre a ser contaminado pelas características próprias desse mundo que combina, como afirmou Vitrúvio no século I A.C., tendo sido corroborado até hoje, intenções funcionais, construtivas e estéticas e a várias escalas, na persecussão da concretização dos espaços de habitar. Há assim uma vertente estética intrínseca aos desenhos em Arquitectura que permite poder usufruí-los com alguma independência dos processos de que fazem parte, não obstante ser-lhes prejudicial um total esquecimento do campo a que pertencem.

Esta advertência é de grande importância pois evitará a comparação directa com os desenhos de Arte, cujos contextos são evidentemente diversos e estão associados à independência do objecto artístico, ou porque fazem parte do seu processo de criação ou são destino final de um acto criativo. E assim, enquanto os desenhos artísticos se increverão nos movimentos de Arte, na obra de um artista mais ou menos reconhecível, e assim contextualizados para a apreciação exclusivamente estética, os desenhos de Arquitectura associam-se forçosamente às opções arquitectónicas do seu autor protagonista ou não de movimentações criticamente reconhecíveis, das quais decorrem também opções estéticas que habitualmente se têm separado das dinâmicas artísticas suas contemporâneas, como se tem constatado ao longo do século XX.

Tomemos o exemplo de Le Corbusier, porventura o mais conhecido arquitecto desse século. Para ele a Arquitectura era, finalmente, uma das três grandes artes, tal como o demonstrou Pierre Vaisse (2), não pondo verdadeiramente em causa o sistema de Belas-Artes, apesar da suas ferozes críticas à École des Beaux Arts de Paris. Mas, ao afirmar as relações com a Cidade e a Técnica, particularmente com a Indústria, e ao estabelecer ligações íntimas e directas entre a Arquitectura e a Vida Moderna, entendia-a peculiar, mesmo nesse contexto, podendo reconhecer-se, nas suas posições, o retomar de continuidades com a tradição vitruviana, o que, aliás, caracterizou em geral o Movimento Moderno, mesmo que alguns dos seus membros mais radicais tenham afirmado a irrelevância da Estética na Arquitectura.

Em Le Corbusier o Desenho era a base das suas actividades como arquitecto, pintor ou escultor (em tempos e espaços separados, mas com relações “secretas”), se bem que a escrita o tenha também servido, em particular na Arquitectura. Nesta Disciplina, o seu interesse maior centrava-se na teorização e no desenvolvimento das ideias, entendidas como a génese do processo em direcção à Construção e, consequentemente, ao Habitar. Os seus discursos teóricos tinham demonstração prática exemplar nos inúmeros esquissos com que visualizava e dava a ver a terceiros as possibilidades das suas reflexões e propostas e, nesses esquissos, está, em boa parte, a sua capacidade mediática desenvolvida para divulgar a boa nova da Arquitectura Moderna. Mas há que não esquecer a vertente dos seus esquissos como meio de conhecimento do mundo visual e que Le Corbusier usou tão cedo quanto nas suas viagens de formação à Itália, Grécia, Turquia e Europa Central e de Leste.

Em Louis Kahn, o célebre arquitecto americano nascido na Estónia, os esquissos de viagem também foram da maior importância na captação e reconhecimento da essência da Arquitectura, ao visitar a Itália, a Grécia ou o Egipto. Os seus desenhos a traço grosso, por vezes fortemente coloridos, captavam a estrutura da forma arquitectónica desses monumentos que ultrapassaram as barreiras do tempo, perdendo apenas os elementos mais efémeros e, por isso, restando o mais essencial. A obra planeada, projectada e construída deste arquitecto, a partir de meados do século XX, revela uma intensa relação com esses esquissos, isto é, com o que Louis Kahn retirou da observação desses monumentos, aliás já preparada pela sua educação, como arquitecto, em Filadélfia, ainda segundo o modelo Belas Artes, mas que ele soube integrar e superar numa carreira profissional e de ensino virada tabém para a modernidade do seu tempo. Citando apenas, por exemplo, o edifício do Laboratório Richards na Universidade de Pennsylvania (1957-61), constituído por corpos de espaços servidos enquadrados por torres de espaços servidores em rigorosa clareza espacial e formal, foi construído a partir de um processo de criação projectual que usou amplamente o esquisso demonstrativo da continuidade com a observação do arquitecto dos monumentos antigos, mas ao serviço da modernidade de um laboratório de investigação avançada (3).

Ao recordar estes dois casos de arquitectos marcantes do século passado e ainda extremamente influentes, pode-se melhor enquadrar e reconhecer o esquisso na Arquitectura, como desenho de realização rápida e traço lesto que regista observações ou ideias projectuais e constitui elemento importante no desenvolvimento quer do processo de conhecimento, quer do processo criativo. Os intrumentos da sua execução podem ser muito diversos, mas tradicionalmente estão directamente ligados à mão, constituindo ainda um campo não abrangido pelo que se tem chamado de novas tecnologias. A espontaneidade do traço é essencial para a expressão do que vai na mente e que, no caso do arquitecto, está intimamente associada à sua visão tridimensional das formas no espaço e da formalização do próprio espaço. Com o esquisso as conexões estabelecem-se rapidamente, relacionando os diversos elementos de maneira visual, seja aquilo que se observa ou aquilo que, futuramente, se verá ou não conforme faça parte do processo construtivo ou das imagens finais após a construção. Para tal o arquitecto usa pontos de vista usuais ou não, coloca-se mentalmente em pontos de vista que escalpelizam  e explicam o que quer observar ou se observará depois da construção.

Troufa Real tem sempre consigo pequenos cartões para esquissar e, quando não os tem, aproveita algum pedaço de papel como um guardanapo de papel, para rapidamente tomar uns apontamentos, explanar e comprovar uma ideia de plano ou projecto, chegando a desenvolver primeiras fases de estudo num só cartão, demonstrando assim uma notável capacidade de síntese gráfica que, evidentemente, está associada à sua extensa experiência como arquitecto e como professor de Arquitectura (também com a vertente de Urbanismo). Mas haverá que não esquecer os apontamentos de observação directa, muitas vezes fonte de inspiração para o seu trabalho profissional, ou mesmo o devaneio de uma invenção arquitectónica não relacionada com qualquer encomenda, mas sim com um desejo criativo suscitado por um local visitado durante uma viagem ou a lembrança da obra arquitectónica admirada.

Afinal os seus esquissos revelam um mundo pessoal de sensibilidade ao que o rodeia e de inspiração criativa, como também de método de projecto, mostrando essa ligação directa entre as fontes mais ou menos conscientes de inspiração e a necessária racionalidade dos processos de produção dos planos e projectos de Arquitectura, estes claros nos seus passos e articulações entre os diversos saberes mais ou menos especializados sob o olhar globalizante da Arquitectura (do Arquitecto) e aquelas às vezes dificilmente explicáveis, mas que só podem ser continuadas se se provar racionalmente a sua capacidade em suscitar respostas aos problemas colocados inicialmente e ao longo dos complexos processos que levam à construção e consequente habitar.

Da década de 80, logo um primeiro esquisso (publicado no catálogo da exposição “Depois do Modernismo” – Lisboa 1983) mostra como Troufa Real entendeu as possibilidades de intervenção no Martim Moniz em Lisboa, contribuindo assim para a proposta que apresentou conjuntamente com Tomás Taveira e que foi premiada. Esse grande espaço então vazio aperece como uma superfície horizontal enquadrada pelas encostas do vale, na qual estão dispostos vários elementos arquitectónicos, mas que não a obstrói. Se observarmos a solução para concurso, verificaremos a importância aí dada aos espaços públicos abertos em sequência, entre o hotel Mundial e a av. Almirante Reis, com ligações às encostas, intenção também reconhecível no referido esquiço.

E como comentar os desenhos relativos à aproximação projectual para um enorme viaduto que a municipalidade lisboeta então pretendia construir a Norte do Beato (1984)? Em esquissos de factura rápida é possível apercebermo-nos da recusa de um viaduto apenas como tabuleiro para uma via aérea de circulação mecânica, apresentando em alternativa um longo edifício integrando igualmente essa via, mas fazendo parte da cidade, um pouco como os edifícios que Le Corbusier apresentou, nos anos 20, no âmbito do Plan Obus para Argel. No entanto, Troufa Real entende-o como mais um edifício na cidade, com fachadas urbanas pontuadas por arcadas, portas e janelas e nelas praticando-se grandes aberturas para atravessamentos urbanos. O ritmo criado por torres gémeas integraria melhor o longo edifício nos tecidos existentes.

E as casas (anos 80 e 90) que procuram ser portuguesas ao apresentarem-se como versões pequenas de composições torreadas como a quinta da Bacalhoa (séc. XV), iniciaram-se nos pequenos cartões que mostram como se adaptam ao terreno, como respondem ao programa dos espaços com a sua regularidade e centralidade e como conbinam torreões, terminados em pirâmides azulejadas, com cúpulas ou impluviae em referência de ordenação clássica que não tem deixado de ser um pólo orientador para Troufa Real.

De maior escala foram os projectos para o Dafundo (cartão que combina escrita com desenho, mostrando a maneira como se poderia entrosar a dimensão doméstica com a urbana numa implantação em encosta – 1985) e para a quinta do Bom Nome em Carnide que procura uma ordem de quarteirões em desordenada zona suburbana, com imagem dominada por torres nas esquinas e integração de casa de quinta setecentista (cartões de 1988/89/90), ou a tradução visual da proposta de ordenamento da praça Duque de Saldanha em Lisboa por Pereira Brandão (cartões de 1985) cujos esquissos destacam, mais uma vez a importância da torre ou torreão na construção de uma imagem ordenada para a cidade.

De 1990 um esquisso explica muito claramente a proposta de Troufa Real para o arranjo da praça em frente ao hotel Lisboa em Macau: uma elipse associa geometricamente a famosa ponte projectada por Edgar Cardoso com a frente de cidade representada pelos edifícios em volta da praça. Confere a ordem procurada com a sua simples forma geométrica.

Os esquissos, datados de 1992 e mostrando o processo de evolução compositiva/construtiva de “a casa do Licínio” no Cartaxo, são bem claros na explanação desse processo e da procura de uma imagem reconhecível, enquanto nos desenhos da segunda metade dos anos 90 nos podemos aperceber da manipulação de formas simples, transportando um destaque individual, mas em composições mais vastas de encontro díspare a que não faltam processos de intersecção e fragmentação que chegam a procurar elementos não arquitectónicos como imagens de relação cultural com um lugar.

Nesta série de esquissos que usam habitualmente o traço firme da caneta (mais rápido ou conclusivo, mais linear, tremido ou traçado e até sombreado, chegando a usar a cor)  e sistemas muito variados de representação como as projecções ortogonais ou diversos tipos de perspectivas e pontos de vista, sempre na procura de adaptar o sistema ao que a ideia foca e ao que Troufa Real quer representar, é possível constatar certos aspectos da evolução, ao longo destes 20 anos, das opções do arquitecto, dos seus interesses compositivos e imagéticos, também de acordo com os objectivos programáticos, mas sempre com uma frescura de risco que demonstra a sua sensibilidade estética muito marcada pela tradição do esquisso entre os arquitectos, mas não sem deixar de também se ancorar na tradição artística da Pintura e do Desenho, numa cultura de relação estética que o arquitecto tem sempre procurado.

 

1) Schaeffer, Jean Marie
L’oeuvre d’art et son évalution
In: AA. VV.
Le beau aujourd’hui
Paris: Éditions du Centre Georges Pompidou, 1993 pág. 17

.2) Vaisse, Pierre
De l’architecture considerée comme un des Beaux Arts
In: AA. VV.
Les passions Le Corbusier
Paris: Les éditions de La Villette, 1989

3) Estas afirmações podem ser confirmadas em:
AA. VV.
Louis Kahn: In the Realm of Architecture
Los Angeles: The Museum of Contemporary Art, 1991

 

Michel Toussaint
Arquitecto

Jan 06

Os Primeiros riscos

Se os desenhos e as pinturas de um pintor profissional se consideram produto da sua arte, de que serão produto as pinturas e os desenhos de um arquitecto como o é Troufa Real? Desde logo, e antes de tudo, não deverão ser entendidas como o produto de uma espécie de amador, mas sim como o de alguém que sabe muito bem o que faz.

O angolano Troufa Real – obrigado pela força das circunstâncias a trabalhar na capital do antigo império que subjugava a sua terra natal – merecidamente conhecido pela sua arquitectura inventiva de grande imaginação e criatividade, declaradamente anti-moderna, onde mistura sabiamente as raízes nacionais que o entroncam com símbolos de vária ordem doseados com intenções afirmadamente lúdicas, não pode actuar como tal senão sob o signo da arquitectura.

Efectivamente, o conceito de uma obra construída não só se distingue de uma devida à montagem em virtude do seu compromisso com a articulação unitária das partes (frente ao fragmentarismo da montagem de uma justaposição de elementos desconexos), como se distingue também (enquanto artifício) do que seria o fruto espontâneo de um desenvolvimento puramente natural.

Decididamente, se há algo que caracteriza a trajectória construtiva de Troufa Real, à parte a sua reconhecida competência técnica e a sua evidente originalidade formal, é a permanente evocação de configurações e processos extraídos do universo da natureza e não só como fonte de inspiração, mas também como «instância de controlo” (como ponto de partida e ponto de retorno): a memória da casa portuguesa conjugada com o simbolismo dos descobrimentos e toda a simbólica da Maçonaria.

Por isso, a questão é saber que lugar ocupam o desenho e a pintura nesse contexto. E a verdade é que, analisando a sua obra plástica, depressa nos damos conta de que ela não desempenha um papel meramente subsidiário ou complementar, negligenciável, mas sim uma função medidora mais importante do que se podia imaginar: a função de campo de ensaios, mesmo muitas vezes do ponto de referência da qual nascem e a que remetem os seus projectos e obras de arquitectura.

Isto não significa que os desenhos e pinturas de Troufa Real careçam de valor autónomo. De facto, na sua obra sobre papel encontramos não só esboços de estruturas edificáveis, mas sobretudo apontamentos de ideias, sonhos que se querem concretizar através da construção, mas que valem por si sós, como criação pessoal de quem sabe conceber e só concebe para que a vida seja mais digna de ser vivida, razão por que não só os seus projectos, mas também a sua idealização, têm sempre a ver com a festa que deve ser viver a cidade e as pessoas, objectivo e razão principal da arquitectura, isto é, com a vida verdadeira.

Embora os seus desenhos acompanhem a organização dos seus projectos, isto é, as suas linhas de força, que são as Casas Portuguesas, ligadas à evocação de Raul Lino e à memória de Cassiano Branco, com quem trabalhou; a simbólica, ligada à Maçonaria, que enforma os elementos de todas as suas composições; os barcos em terra, ligados ao mar e aos descobrimentos portugueses; no fundo, tudo se resume à primeira, as Casas Portuguesas, pois elas são o resumo da sua orientação, porque mesmo quando numa série de desenhos como as “Viagens” retrata outras paragens longínquas, são os elementos das Casas Portuguesas que vai fazer sobressair.

Mas os desenhos de Troufa Real não são apenas instrumentos ou espaço de experimentação, eles são também testemunho dos vínculos da sua arquitectura à experiência da natureza e às grandes correntes da arte contemporânea, que, por outra via, liga à sua obra, através da colaboração de um punhado de artistas plásticos de renome, seguindo o método de trabalho dos seus mestres.

Como diz aliás Nuno Ladeiro, “Dos desenhos de Troufa Real ressaltam a humanidade e a tradição. Troufa Real, o homem, o arquitecto, usa o desenho como suporte da imaginação na criação de imagens que podem ser as de um azulejo, de um edifício, de um monumento ou de uma visão”.

E mais adiante salienta: ”Os seus desenhos transportam-nos ao universo de uma utopia onde navegam os navios das descobertas que se materializam em edifícios (Centro de Formação Profissional em Portimão), igrejas ( Igreja de S. Francisco Xavier), num viajar que representa a forma móvel e aberta de estar na vida de um arquitecto que quisera viver num barco.

O imaginário do Império é revelado nos desenhos dos globos das fachadas, no globo do Monumento à Lusitude, das casas portuguesas prolongamento do pensamento de Raul Lino, dos cordames manuelinos presentes no desenho “Simpatia e União”, dos elementos da emblemática dos Irmãos da Costa de Portugal.

As geometrias estão patentes no triângulo sublime extraído do pentágono salomónico que se encontra na planta da Casa da Serretinha, nos Açores, no ex-libris TR e no mostrador do Swatch e aparecem ainda associadas a símbolos evocativos da terra-mãe como as palmeiras de cinco pontas representando generosidade e fertilidade”.

Enfim, o processo de encontrar novas ideias passa pelo diálogo de quatro intervenientes em sequência, o cérebro, a mão, o registo numa superfície, o olhar, e assim sucessivamente. As novas ideias surgem por vezes de um rearranjo das antigas. O olhar sobre o desenho e o desenhar trazem mudanças por vezes involuntárias, que geram novas formas. Troufa Real desenha com o humor, a expressividade mantendo-se atenta aos sinais devolvidos pelos desenhos daquilo que não existe, não pode ser visto e é imagem de um pensamento.

Sempre quis ser pintor, declarava Troufa Real à revista “Ego”, Lisboa, em Março de 1997. “Com oito anos, fiz mesmo uma exposição numa livraria em Luanda, mas como, na época, ser-se pintor era tido como um acto de loucura, e de certa libertinagem, obviamente que os meus pais interferiram. A alternativa foi a arquitectura. Não me senti frustrado, pois considero a arquitectura uma arte.”

A sua primeira exposição foi recebida com particular entusiasmo pelo jornalista Agnello Paiva, que dirá no “Diário de Luanda”(22-1-1950): “Trata-se duma criança vivaz, com natural vocação para a pintura. As suas aguarelas têm o cunho impressionista. Inclina-se, sobretudo, para os quadros da Natureza que ele fixa em pinceladas incisivas, com o trocadilho das cores, imprimindo nos seus trabalhos a luz forte que exalta a firmeza do traço”. E acrescenta: “José Deodoro procura os quadros da natureza tal como ela é ou como se acredita que ela seja. Tudo objectivo na luta entre a ideia e a forma. Procurando as ideias gerais, procura a verdade. É fácil compreender que, procedendo assim, nos dá a certeza da sua inclinação para o impressionismo: maior objectividade, poesia nas imagens, pintura ao ar livre, divisão de tons puros, sombras luminosas”.

A seguir à sua primeira exposição, apresentará outra, passados dois anos, que o malogrado pintor Roberto Silva, de quem foi discípulo, assinalará de maneira encomiástica, ao mesmo tempo que se autoculpava: “Tentei fazer dele o que Malta (Eduardo) faz aos filhos: ensiná-lo a desenhar correctamente. Resultado: matei-lhe a ingenuidade tão ambicionada pelos modernistas. Relevem-mo também! – Não faço mais do que penitenciar-me! Pudera! Se me sinto mais para receber do que para dar-lhe lições! Pudesse ele ou quisesse manifestar o que pensa e talvez eu o devolvesse aos seus… com uma formal escusa… É que ali, naquele corpo pequeno, está, na verdade, o espírito de uma grande precocidade artística!”

Troufa Real diz que não é bem assim, que não perdeu a ingenuidade, com a formação. Ganhou foi uma certa perversidade, muito próxima da malandrice à moda angolana, que tem também a ver com um certo erotismo, que irá aparecer na sua obra posterior, sempre que pôde e as circunstâncias lho permitiram. Trata-se, sobretudo, de quebrar tabus, razão por que, sempre que foi possível, isso vem à superfície em casas que projectou em Luanda, Portugal e nos Açores.

A nível imediato, porém, pelas razões indicadas e por outras derivadas dos circunstancialismos e limitações da época, estas experiências não terão repercussão, mas, na verdade, marcá-lo-ão, indelevelmente, tudo fazendo prever que, mais cedo ou mais tarde, teriam de dar fruto.

Naturalmente, dada a sua profissão de arquitecto, em que precisa de executar incessantemente esboços e estudos de vária ordem e de diversos objectivos, o surgimento do desenho como modo de expressão e de pensar tinha de despontar, a propósito de tudo, quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de vista pessoal, dir-se-ia que era um resultado inevitável.

O arquitecto Michel Toussaint, seu amigo e colega dos tempos de Luanda, compreendeu-o acertadamente ao analisar os desenhos que fez sobre Macau, quando este sentiu o drama daquele território como arquitecto: “Troufa Real utilizou o desenho informal. É a necessidade de reflectir através dos meios da profissão. Assim se está ante um caso em que o desenho não é uma comunicação com a obra, rigor construtivo, mas sim imagem, apontamentos, são inúmeros os casos de arquitectos, pintores e outros artistas que sistematicamente desenham num papel de ocasião, num cartão ou num guardanapo de papel. A sua espontaneidade manifesta directamente o pensamento do autor, tanto na observação como na expressão da ideia. Muitas vezes as opiniões multiplicam-se, o detalhe coloca-se no geral. À opinião acrescenta-se o utópico, tanto se estiver entre paredes como na terra ou no mar. Entra-se num amplo espaço da imaginação criadora, a verdade de todas as artes.”

E prossegue: “Normalmente, tais desenhos em papéis de pequenas dimensões, terminam no lixo. Mas quanto se perde para a futura compreensão de uma obra, da génese dum trabalho, das intenções de uma forma arquitectónica, sequência espacial ou detalhe colorido!”

“Troufa Real exprime os seus sentimentos nestes pequenos desenhos que vai fazendo com a caneta. (…) Nele isto é que faz despoletar tais propostas. Por um lado, a expansão da cidade (Macau) pelas águas, que já é uma realidade do nosso século deixando livres os actuais limites das orelhas, praias e portos, envolvendo a península num cerco. Como uma moeda de duas faces que abre e fecha simultaneamente o seu território. Expõe a contradição de adopção de Macau às alterações profundas da região, mas, ao mesmo tempo, mantém  a sua identidade de enclave, sinal em território chinês num contraditório momento em que são os próprios chineses a propor a continuidade desta diferença de Macau e Hong Kong, após 1996, perpetuando uma particularidade que, aparentemente, é menosprezada.

Observando melhor as imagens arquitectónicas de Troufa Real, verificam-se referências chinesas e ocidentais. O muro de topo ondulado de jardins do império do Meio, que se transformam em grandes edifícios, também ondulados, como os místicos dragões, defendendo a cidade contra os males ocidentais”.

Realmente, Troufa Real exprime os seus sentimentos nestes pequenos desenhos que vai fazendo com a caneta. É um antigo hábito, rotina de sempre. E, a seguir aos desenhos de esboços, vieram os desenhos por si próprios, em que Troufa Real, virtuoso no traço, exacto e preciso, muitas vezes subtil, conjuga com destreza a tradição europeia do desenho com uma maneira muito pessoal de o apresentar, mantendo sempre um ritmo dinâmico e peculiar.

Utilizando intencionalmente o pequeno formato no sentido de lhes dar mais profundidade sem abandonar a simplicidade quase de asceta, acaba por lhes fornecer uma complementaridade entre o visual e o conceptual, equiparando o visual com os sentidos, compatibilizando a amabilidade das imagens com o esforço duma contemplação analítica, de uma busca do sentido estrutural das coisas mais simples.

Daí o seu aspecto mágico no que a natureza muda o seu poder e a sua razão produzindo o passo indescritível da consciência à forma. Jogando essencialmente com a sobriedade, incluindo até uma certa rigidez de algumas formas, os seus desenhos de viagens têm, involuntariamente, tanto de mediterrânico como de africano, não só pela frescura com que se mostram mas sobretudo pela luz inevitável, que neles aparece como outro conceito espacial da escrita pictórica, com outro sentido das medidas, numa manifesta vontade de apanhar no seu todo as paisagens de que se acerca, como se houvesse produzido o definitivo transvasamento para um mundo que até ali era uma circunstância e que a partir de agora será, sem dúvida, o ideal para o seu comportamento.

Relegado injustamente, nas últimas décadas, para um lugar que dir-se-ia menor no panorama da arte contemporânea, mercê de muita ignorância e de muitos jogos menos honestos no mercado da arte, a verdade é que o desenho desempenhou um papel imprescindível nos vários movimentos estéticos que marcaram a contemporaneidade do século XX. Tanto é assim, que algumas das mais radicais transformações artísticas, como o surrealismo, não se podem entender sem a presença insubstituível do desenho. Porque ele é, antes de mais, uma libertação, para a actividade criativa, e daí é que vem o seu fascínio, onírico ou racionalista. Troufa Real entendeu bem este papel, até porque foi companheiro dos malogrados João Rodrigues, Gueifão Ferreira e Carlos Fernandes, para quem o desenho era o alfabeto sublime da comunicação poética surrealista, pelo que não admira que o tenha escolhido, não como esboço para uma obra pictórica ou simples estudo para o seu trabalho profissional enquanto arquitecto, mas como obra em si mesma.

Como disse o professor Augusto Pereira Brandão, “Os seus desenhos, os seus sonhos parecem-nos levar a uma cultura que nos envolve, nas valências culturais, que tanto podem ser do expressionismo, como do primitivismo africano. É neste duplo ambiente que a sua enorme imaginação escreve para o Mundo, desenhando sonhos, utopias, brilhantes atmosferas que abrem as portas à cultura multi-atlântica de um post-modernismo próprio. É neste campo, em que a intuição anda à solta, em que se cria com loucura, que Troufa Real se apresenta como vidente de um futuro humano, grandioso e multicontinental.”

O que, de algum modo, explica a razão de estes serem desenhos intemporais, representações  esquemáticas de  sítios, lugares e pessoas, coisas transformadas em visão quase simbolista que ele vai edificando desde uma singular metamorfose a uma hermenêutica  única e original.

É a arte convertida em manifestação de inquietações interiores, como salto para a plena liberdade, não escondendo a autenticidade duma escrita gráfica criativa de quem vê na arte da representação uma ferramenta básica de comunicação entre iguais.

Durante a Idade Média, os anglo-saxões, logo que os seus filhos ultrapassavam a difícil idade da adolescência e estavam prontos para entrar na vida adulta, davam-lhes uma sacola cheia com o indispensável, e apenas com um instrumento musical, na maior parte das vezes, mandavam-nos correr mundo, pois que não há melhor escola do que a vida. Tal costume recomeçou a ser utilizado essencialmente pelos nobres ingleses no século XIX, que, ao mandarem os seus filhos, antes de se casarem, fazer o seu “tour”, nem sequer adivinhavam que estavam a dar origem a uma palavra que hoje dá a volta ao mundo no sentido mais literal do termo – o turismo.

Não com este turismo, mas no primeiro sentido de conhecer mundo e aprofundar a vida é que devem enquadrar-se as viagens de Troufa Real, todas feitas sempre por nobres desígnios. Assim, por exemplo, visitou Moçambique para conhecer Pancho Miranda Guedes, Trás-os-Montes para descobrir Nadir Afonso e Viana de Lima, e, quando ainda estudante, Brasília recém-inaugurada para encontrar Óscar Nyemeyer.

De todas as suas viagens nos dá notícia através duma das séries dos seus desenhos objectivamente esquemáticos e concentrados na linha, alguns, audazes e vigorosos, expressionistas ou deliciosamente desenfadados, outros, mas identificados entre si pela segurança dos traços, manifestando o seu estilo particular através duma sensibilidade que incide no que lhe é próximo, na vivência do que o vai envolvendo, na comunhão com o privado. Assim, paisagens, amizades e sítios compõem o território único em que se encontram e desenvolvem os seus interesses.

Nessa medida, é que, de várias maneiras, todos os seus desenhos põem em relevo o valor e a importância do desenho para compreender a elaboração da sua obra arquitectónica.

Se no plano da criatividade os caminhos estão abertos a toda a imaginação e a todas aventuras intelectuais, a nível de esquemas mentais já não há mais nada novo à face da Terra, como já acentuavam há mais de dois mil anos os filósofos da chamada  Antiguidade Clássica.

Sendo, antes de mais, um imaginativo, um intuitivo, um criador nato, qualidades que o transformam numa personalidade singular na cultura arquitectónica dos nossos dias, como tem sido reconhecido pelas pessoas que conhecem o seu trabalho, quer a nível arquitectónico, quer a nível plástico, Troufa Real, senhor de uma ambivalência lúdica e criadora, de cariz acentuadamente utópico, cuja característica principal é a capacidade de sonhar, aparece efectivamente, no panorama cultural agora felizmente a renovar-se, malgrado muitas resistências dos mais variados sectores, “como um homem de paixão, com quem se aprende a sonhar”

Porque, antes de mais, Troufa Real prioriza o universal e, para isso, não há nada melhor do que partir de princípios primordiais essencialmente locais, como o mito do Quinto Império, isto é, o império preconizado pelo grande mestre da Língua Portuguesa que foi o Padre António Vieira, um império que se há-de impor pela Cultura, pelo espírito, que é, afinal, o destino dos portugueses.

 

Rodrigues Vaz
Jornalista

Jan 06

A Simbólica nos Desenhos de Troufa Real

Se no plano da criatividade os caminhos estão abertos a toda a imaginação e a todas aventuras intelectuais, a nível de esquemas mentais não há mais nada novo à face da Terra, como já acentuavam há mais de dois mil anos os filósofos da chamada Antiguidade Clássica.

Sendo, antes de mais, um imaginativo, um intuitivo, um criador nato, características que o transformam numa personalidade singular, na cultura arquitectónica dos nossos dias, como tem sido reconhecido pelas pessoas que conhecem o seu trabalho, quer a nível arquitectónico, quer a nível plástico, Troufa Real, senhor de uma ambivalência lúdica e criadora, de cariz acentuadamente utópico, cuja característica principal é a capacidade de sonhar, aparece efectivamente, no panorama cultural agora felizmente a renovar-se, malgrado muitas resistências dos mais variados sectores, “como um homem de paixão, com quem se aprende a sonhar”, como disse o João Soares da edilidade lisboeta e seu amigo que sempre fez questão de não lhe entregar nenhum trabalho por recear ser acusado de promiscuidades amiguistas, embora o tenha convidado para inaugurar a Sala do Risco, o que recusou, recomendando, em contrapartida, que deveria ser o Mestre Frederico George a fazê-lo, o que aconteceria com tanta oportunidade, que este viria a morrer ainda com a sua exposição ali patente.

No início de 2001, Troufa Real expôs na Galeria Hexalfa, em Lisboa, os seus desenhos subordinados ao tema “Simbólica”, de certo modo uma homenagem ao  próprio nome da Galeria, a sugerir relações com a Grande Tradição, pelo que os seus desenhos relacionados com esta temática tiveram, neste espaço, o “templo ideal”.

Porque, é tempo de falar sem rodeios, para lá da sua criatividade individual e inevitável, a nível profissional, toda a obra de Troufa Real tem a ver com a geometria sagrada do Templo, cujo princípio ordenador, por si só, é capaz, ainda agora, de transmitir aos sentidos a visão de equilíbrio e de sentido da vida de que deve ser portadora toda e qualquer obra de arte.

Entre a Ética e o Fantástico, salientando o discurso da sua vertente esotérica, os desenhos de Troufa Real, assim como a sua arquitectura, têm a ver sobretudo com a imaginação e um marcado simbolismo, que procuram nos contrastes e oposições – a luz e as trevas, a terra e o mar, o branco e o negro, a sabedoria e a ignorância, a força e a fraqueza – o pretexto fundamental de uma obra que tem como linhas de força, além do fascínio da arquitectura, o imaginário do Império, nas suas principais opções – barcos em terra e petroleiros – as Casas Portuguesas e os símbolos das cores, correspondendo o branco à Sabedoria, o vermelho à Força e o azul à Beleza, na realidade as cores da bandeira francesa saída da Revolução de 1789, por sua vez, respectivamente símbolos da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. E, como alternativa ao branco, há ainda o amarelo, símbolo do sol e da luz.

É evidente, portanto, na obra de Troufa Real, a componente maçónica, a qual, como é natural, tem raízes profundas na sua própria família, pois seu avô materno, Deodoro Faria, que foi um dos homens fortes do Balombo, Angola, era amigo do patriarca da família Bernardino, do Bailundo, e do General Norton de Matos, todos ligados à causa maçónica, tendo acabado por homenagear o antigo Alto Comissário em Angola, impondo o nome deste quando da elevação daquela povoação a concelho, como Vila de Norton de Matos, de cuja Câmara Municipal chegou a ser presidente. Balombo, onde no início do século XX foram descobertas as célebres águas quentes, tal como as de Chaves, de onde o seu avô era natural, que vieram a ser denominadas do Kota-Kota, foi aliás pretexto para uma regular correspondência entre o seu avô Deodoro e o General Norton de Matos, um dos poucos dirigentes portugueses que no século passado melhor perspectivou o futuro do país angolano, embora segundo uma óptica imperial.

Alertado por esta razão para outras realidades que o regime do Estado Novo teimou sempre em esconder das massas, que queria manter ignorantes, não admira que, quando Troufa Real regressa a Luanda, em 1967, encete relações com personalidades que a estas organizações discretas – mantidas sempre activas apesar de “proibidas” – estavam ligadas, nomeadamente o dr. Eugénio Ferreira, que foi durante muitos anos representante do Grande Oriente Lusitano, GOL, em Luanda, o oftalmologista Sousa Dias, o Franco de Sousa, co-fundador do MPLA, e o dr. Zeferino Cruz, famoso dentista em Luanda nos anos 50 e 60, em cujo barco de recreio se fizeram muitas reuniões, e cuja casa no Futungo de Belas viria a ser a primeira residência em Luanda do primeiro presidente angolano, dr. Agostinho Neto.

Neste rol é ainda de salientar a acção do comandante Coimbra, até há pouco Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, iniciado na Maçonaria no Lobito, cujo saber e quantidade de informações muito ajudaram o desenvolvimento de um certo esclarecimento político – pelo menos o que era possível, nas circunstâncias do momento – assim como da Kuribeka (Benguela), os quais de alguma forma contribuiram para que, como já referimos, quando das eleições de 1958, tenha sido vencedor na maior parte das cidades angolanas o general Humberto Delgado, o que Salazar nunca viria a perdoar.

A esta vertente esotérica Troufa Real manter-se-á sempre fiel, marcando com execução apaixonada mesmo as suas “Casas Portuguesas”, onde a construção do Templo está sempre presente assim como toda a simbólica que a acompanha. E mesmo nos textos que, de vez em quando, é obrigado a escrever sobre qualquer assunto, esta componente vem amiúde ao de cima.

Por exemplo, num muito elucidativo depoimento para o livro “Cassiano Branco: Uma obra para o futuro”, Troufa Real assinala a certa altura: «…no Café Nicola… encontrava-se normalmente com  companheiros de ideário clandestino, da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade. Artistas, homens de letras, colegas (muito poucos) gente “maldita”, suspeita e incómoda ao regime. Todos tinham um ponto comum, uma certa e discreta  marginalidade dentro do sistema social estabelecido.”

E, depois de dar uma ferroada nos arautos do “movimento moderno”, a quem não perdoa toda uma série de incoerências, ainda consegue salientar humoristicamente que Cassiano Branco “dava-se com pouca, mas notável gente, interessada na sabedoria, na beleza e no debate fraterno das ideias”. E, a terminar, não deixa de lembrar: “Cassiano Branco é, para além da sua obra, uma referência. É mais um exemplo que nos fica, depois de louvar os mortos depois de maltratados em vida…”

Se, como já dissemos, a vertente simbólica acompanha sempre a sua produção, ela tem sido especialmente marcante nos seus relógios, que executou para algumas nobres causas: o PS Watch para a campanha legislativa de Jorge Sampaio, o Palmeira para uma campanha anti-droga, o Rebeldia para a Loja Rebeldia do Grande Oriente Lusitano.

Um deles, com palmeiras e um triângulo mágico, é, simultaneamente, uma assinatura e uma proposta cultural. Noutro, um relógio de parede executado para a Casa Fernando Pessoa, que é, antes de mais, uma homenagem ao grande poeta, a semi-esfera recorda o Sol, com os seus doze raios flamejantes, a Estrela da Vida. O Triângulo Sublime é retirado do Pentágono, símbolo de Salomão, que já tinha servido para o seu próprio ex-libris, uma palmeira – por sua vez, símbolo da sua terra natal, na vertente da fertilidade e da generosidade – de cinco ramos e, portanto, com cinco pontas, curiosamente tal como as tinha desenhado apenas com sete anos de idade, ainda ele não imaginava como iria ser o futuro. O Desenho (Sagrado), as Cores e os Materiais na tradição Barroca (Ouro, Azul Celeste, Talha) representam a grande mudança do pensamento, pela Liberdade, Igualdade, Fraternidade (Galileu, Marquês de Pombal, Liberalismo, Primeira República, 25 de Abril). Da cabala do Pentágono na sua ordem numérica, à geometria sagrada do Templo e à ordem do tempo (horas, minutos e segundos)11=12, um pouco à maneira de Almada 1+1=1, Troufa Real invoca recorrentemente, quer pelas formas e quer pelas cores, referências a símbolos maçónicos, até pelo pêndulo do relógio, de grande dimensão e forma piramidal, símbolo ancestral que é, ao mesmo tempo, evocação fálica e de origem do mundo.

De uma maneira geral, os seus projectos, e naturalmente os seus desenhos, que são muitas vezes a génese deles, andam à volta de uma temática muito própria que se desenvolve e cruza com as linhas de força da terra onde nasceu – Angola – e o país onde estudou e agora trabalha – Portugal  – ou melhor, Lisboa. Neste sentido, a sua principal temática, quase mítica, anda à volta do que ele chama “Imaginário do Império”, subdividida em “Barcos em Terra”, homenagem ao povo que desbravou o mar, “Petroleiros”, a nova saga da necessidade da interligação entre os continentes, e “Casas Portuguesas”, de vários modos o reconhecimento do fascínio que o equilíbrio da arquitectura de Raul Lino sempre lhe mereceu, devido ao entrosamento que conseguiu entre uma certa rigidez do Norte e a amenidade das marcas do Magreb na Península Ibérica, recuperando a relação mediterrânica numa simulação dócil, onde os azulejos têm uma função primordial, estilo arquitectónico que viria a desembocar no que classifica estilo Português Suave, que tem por epígonos os arquitectos Cassiano Branco, Cristino da Silva e Carlos Ramos, este, autor, em pleno ambiente pombalino, do célebre edifício da Casa da Imprensa, em Lisboa, com as suas linhas simples e objectivas, mas em profunda ruptura com todo o ambiente que o enquadra, embora paradoxalmente, na sua sintonia.

Porque, antes de mais, Troufa Real prioriza o universal, e, para isso, não há nada melhor do que partir de princípios primordiais essencialmente locais, como o mito do Quinto Império, isto é, o império preconizado pelo grande mestre da Língua Portuguesa que foi o padre António Vieira, um império que se há-de impor pela Cultura, pelo Espírito, que é, afinal, o destino dos portugueses, cujos emigrantes em diáspora sem fim acabam por funcionar como uma espécie de missionários da Cultura do Ocidente, encerrando agora a elipse com o aparecimento de Portugal como terra de imigrantes.

É, aliás, esse mesmo sentido ecuménico que o leva a utilizar, desde 1972, nos seus desenhos, um papel especial de manufactura chinesa que compra habitualmente em Macau, com as dimensões de 7.50×12.50cm, seu companheiro de sempre, apenas substituído eventualmente por guardanapos de papel, e que acaba por já funcionar como uma das suas idiossincrasias, valendo como assinatura, firmado com canetas igualmente chinesas.

Nas suas últimas obras, nomeadamente as suas intervenções na EXPO ‘98 e actual Parque das Nações, a sua concepção arquitectónica, que se reflecte com particular acuidade nos seus desenhos, resulta do discurso cultural estabelecido pelo autor do Plano, ou seja, carregado de intenções diversas, que sugerem objectos arquitectónicos sobre o embasamento, variados e passíveis de diferentes combinações como um “puzzle” ou “Lego” tanto ao nível da forma como das cores e ornamentos.

Trata-se de um registo “renovado” de uma Lisboa “antiga”, rica em formas e estilos (contrastes), telhados e cores numa miscelânea vibrante, resultante de diferentes épocas, civilizações e culturas importadas por viajantes, navegadores, imigrantes ou comerciantes desse mundo.

Foi neste sentido e em consequência dessa notável re-invenção urbana para a EXPO ‘98, que apelava à diversidade, variação de cores, etc, que propôs para o edifício Gil Eanes a referência simbólica da Bandeira de Portugal. Não o entenderam assim alguns responsáveis, que preferem continuar como guardiães de velhas fórmulas e receitas a enfrentarem o risco das inovações, pelo que, a pedido, acabou por ir à lixívia, acabando por aparecer, no final, pintado de branco. Paciência. Ficaram o Plano de Pormenor, o PP3, que contempla uma área significativa, e o edifício das Casas do Tejo, que, como já foi referido, se trata de facto de um “cadáver esquisito”, à maneira dos surrealistas, metade edifício em Terra, metade navio fantástico encalhado na Expo’98, para de algum modo minorar as suas ânsias de infinito de “arquitecto arrependido que queria ser marinheiro”.É um edifício que surpreende com os seus aspectos variados e inesperados, sobressaindo uma “quilha” de rotura entre duas atitudes distintas “o Mar” e os “Barcos em terra”, da qual resulta uma síntese de informalidade e intimidade, e cuja poética se traduz numa arquitectura simbólica inspirada nos Descobrimentos, na mensagem Bíblica e Cristã do Ocidente e na aventura por terras de além-mar (Manuelino, Fortes e Fortalezas do Antigo Império, o Mar e a Terra, o Sol e a Lua, o Branco e Preto do Templo, luz e trevas, o Dia e a Noite), elementos que têm muito a ver com com o que Teixeira de Pascoais designava de Lusitude, termo que é muito caro a Troufa Real, e que de alguma forma concretizou no projecto que apresentou no concurso para o Centro Cultural de Belém, que imaginou como uma grande esfera armilar, símbolo de D. Manuel I.

Entre uma certa perversão, concretizada pela primeira vez em Luanda, numa delegação do Banco Pinto & Sotto Mayor, com evidente sentido erótico, na esteira do erotismo de Georges Bataille e das suas transgressões – autor, na altura, editado em Portugal pelo António Alçada Baptista, na Moraes Editora – e prosseguida com as suas casas eróticas, nomeadamente em Portugal e Açores, e uma indelével expressão irónica que se vai tornando a sua tónica, Troufa Real não perde ocasião para empregar a simbologia “sagrada”, pelo que aproveita sempre todas as oportunidades para utilizar portais e varandas triangulares, que fazem lembrar os mobiliários do templo, entre outros numerosos detalhes que só um iniciado perceberá, mas que são, antes de mais, uma contínua homenagem a um mestre, Cassiano Branco, cujo nome simbólico é Vitrúvio, como é o caso, por exemplo, da casa de Mário Cabrita Gil, em Alfama.

Razão porque, nessa mesma medida, tal como o mestre, compreende a arquitectura como uma arte partilhada com as técnicas, as ciências sociais e humanas, com todas as artes. A pintura e a escultura, especialmente, não se afastam do resto. “Há na arquitectura um grande compromisso com a cultura, a estética, a filosofia e as humanidades”, fez sempre questão em frisar.

Anote-se, a propósito, que esse sentido de partilha já o tinha levado a solicitar a colaboração de Carlos Fernandes, um surrealista pop marcado por um vincado sensualismo tropical, logo na primeira fase da sua estada em Luanda, cidade onde frequentou a tertúlia da esplanada do Zero, na Avenida Marginal, compartilhando também convívio e solidariedade com jornalistas como o João Fernandes, o José Manuel da Nóbrega e eu próprio, fotógrafos como o Fernandes Chaves, artistas plásticos, como o referido pintor Carlos Fernandes, intelectuais como o Aníbal Fernandes, e poetas como o Herberto Helder, quando da sua passagem de três anos  pelo “Notícia”, que foi uma das experiências mais exuberantes do jornalismo português. Acrescente-se ainda que foi dessas ideias partilhadas com muita ironia e muito mais entusiasmo que nasceu a ideia do Salão de Arte Moderna de Luanda, que foi a primeira grande oportunidade que Luanda teve de usufruir dos primeiros sinais da modernidade nascente.

Resta assinalar que todos os desenhos de Troufa Real se referem a projectos seus, de que são a sua génese ou variações com vista a criar e encontrar novas soluções.

 

Rodrigues Vaz
Jornalista

Jan 06

Troufa Real 50 anos de riscos – O Sonho de uma vida

Para além do seu nascimento em Angola, que poderia ser apenas acidental, Troufa Real é bem o resultado de uma misceginação luso-angolana que procura em todas as suas raízes a razão da sua obra e da sua identidade cultural, mas onde, devido à exuberância própria dos trópicos, estes marcam indelevelmente os traços da sua criatividade, embora adaptados a um outro racionalismo que acaba por impor alguma contenção e emprestar o rigor requerido nas paragens europeias.
«Quando da implantação da República em Portugal, o meu avô, da parte da minha mãe, o Deodoro Faria, que era de Chaves, estava ligado a todo esse processo – foi aliás integrante do grupo que viria a ser conhecido como os Defensores de Chaves – e, como as coisas no início foram o que se sabe, isto é, com muitas lutas e escaramuças, o pai dele, que tinha uma companhia de navegação, disse-lhe que o melhor era ir dar uma volta até África, que, passados uns tempos, poderia regressar, pois já estaria tudo arrumado.
Acontece que, quando o meu avô chegou ao Lobito, Angola, encontrou amigos, fez outros novos e acabou por fascinar-se por aquelas terras. Levaram-no um dia até ao Balombo, onde há águas quentes e, obviamente, que, logo ao primeiro olhar, disse:
– Mas isto é Chaves!
É um fenómeno de toda a emigração, que encontra sempre locais parecidos aos do seu imaginário natal e acaba por se agarrar a eles como se da sua verdadeira terra se tratasse. Foi o suficiente para ficar por lá, tendo vindo a apaixonar-se por uma senhora negra, da conhecida família Carmelino, do Cuma, com quem teve uma filha que nasceu branca, a mãe Elvira.
Na linha da velha tradição, como era branca, esta foi retirada à mãe e mandada para Chaves para ser educada, nunca chegando a conhecer a mãe. Ao fim e ao cabo, era a história da célebre canção que a Amália Rodrigues cantava, com letra dum conhecido poeta moçambicano, intitulada “Mãe Preta”, que a censura salazarista proibiu. Era a história das mães negras com filhos brancos, os quais normalmente eram retirados às mães, como foi o caso dela. A minha mãe nunca conseguiu ouvir esta canção sem lhe virem as lágrimas aos olhos.
Quando chegou a uma determinada idade, continuando em Chaves, onde tinha sido educada por uma tia, mas a quem também ajudava a criar os filhos, a que viria a ser minha mãe apaixonou-se por um moço da família Troufa Real, que vivia na muralha do castelo, na Rua do Poço. Namoraram, como era hábito na época, e acabaram por acertar casamento. Foi o momento em que a minha mãe aproveitou para tentar regressar a Angola. Assim, o meu pai alistou-se como voluntário e foi colocado em Luanda, tendo a minha mãe casado por procuração e ido ter com ele à capital angolana. Depois, como o meu pai tinha um curso técnico de electricidade, ficou a trabalhar na Câmara Municipal de Luanda e por lá se manteve. Venho a nascer em Luanda em 18 de Março de 1941, José Deodoro Faria de Troufa Real, de meu nome completo.
Tinha 7 ou 8 anos quando fiz a minha primeira viagem de avião para conhecer o meu avô Deodoro Faria, que continuava no Balombo. Nunca me esqueço dessa viagem, que foi a minha primeira aventura. Em 1947, Angola ainda era um pouco selvagem, cheia de belezas naturais, o que agora, felizmente, continua a ter. Foi uma viagem de descoberta e encantamento.
Fui baptizado na Igreja do Carmo, frequentei o Colégio D. Maria II, nas Ingombotas, e fiz exame na Escola Primária nº 7, em frente à Câmara. A minha infância decorreu sem percalços no bairro das Ingombotas, muito típico da Luanda daquele tempo, em que a capital angolana era uma aldeia grande, à volta do posto da Administração, da Escola, da Câmara Municipal. Os meus pais tinham relações cordiais com os Correias Mendes, os Vieira Dias, os Morais, os Belos, com cujos filhos eu convivia sem complexos, assim como com os velhos funcionários da Câmara, de todas as categorias, a quem sempre soube respeitar. Nesse tempo não havia problemas de raças, Luanda era mesmo uma cidade crioula. Aliás, as figuras de que me mais me lembro são de negros, como o velho Demóstenes, insigne figura de desportista, o velho enfermeiro Boavida, que me salvou a vida, e com cujos filhos brinquei, o Américo, conhecido médico que morreria na Frente Leste, em 1973, numa emboscada que o exército português fez ao MPLA, e o Diógenes, que viria a ser o primeiro ministro da Justiça de Angola, além dos Van-Dúnem e dos Mingas. E, está claro, é preciso não esquecer as pessoas que iam chegando de Portugal.
Fiz o 1º ano no Liceu Salvador Correia e, em 1952, vim fazer o 2º ano no Liceu Gil Vicente, em Lisboa. No 3º ano fui expulso deste estabelecimento escolar por causa da Mocidade Portuguesa, e acabo por ir para a Escola Portugália, que era barata, e para onde ia muita gente de Angola. No 5º ano, o Américo Boavida, que tinha sido meu vizinho em Luanda, como referi, e que andava mais adiantado, pois era mais velho, foi meu explicador.
Eu vivia nesse tempo no Bairro das Colónias, no número18 da rua Zaire. Foi aí que vi, pela primeira vez, o Igrejas Caeiro, que ali tinha uma paixão, a Elvira Velez, já locutora radiofónica, e que viria a ser a sua mulher. Pelas suas características, a Escola Portugália conseguia reunir muita gente do Império, pelo que, desde logo, me senti em casa; lá andou o Trovoada e outras figuras que se viriam a assumir como os libertadores das colónias. Foi lá ainda que conheci o Nicolau Breyner, que não era um bom estudante, mas era talentoso e se fazia notar pela sua inteligência.
Ainda regressei a Luanda para passar as férias, mas tive de voltar para Lisboa, porque no Liceu Salvador Correia não havia a alínea h), que dava acesso a Arquitectura. E, concluído o 3º ciclo liceal, no Liceu D. João de Castro, onde ganhei um Diploma de Assiduidade exemplar e o Prémio de Arte Sacra desse ano, comecei a cursar arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, ESBAL, como bolseiro da Câmara Municipal de Luanda, o que me obrigava a ter uma média acima de 16 valores, que mantive até ao fim do curso. Ainda tinha direito a um prémio da própria Escola Superior de Belas Artes, mas esse foi um prémio que nunca cheguei a receber, porque, se bem que mo entregassem, retiravam-mo logo a seguir, devido ao meu comportamento político.
No primeiro ano, tive como colegas o Tomás Taveira, o Amílcar Aires, que era de Cabo Verde e mais conhecido como Mimica, o Pereira Chan, de Macau, entre outros, que viriam a acompanhar-me durante todo o curso. Está claro que, nessa altura, em 1960/61, quando entrei para a ESBAL, era a fase em que a Casa dos Estudantes do Império, CEI, estava no auge, foi um ano de grande agitação, e eu estava metido em tudo relacionado com Angola, e não só. Foi o tempo do processo de Beja, do processo de Goa, enfim, havia muito interesse pela evolução política colonial, despertado também, na época, com a publicação da revista “Mensagem”, que aumentou o contacto com a literatura africana. Deste período, recordo-me muito bem do Mário Pinto de Andrade, que já conhecia das Ingombotas, pelo papel que desempenhou na década de 50, em Lisboa.»
Em 1960, o caso de Goa tinha vindo agitar o marasmo português, e foi logo seguido do golpe de Palma Inácio em Beja. Depois, começaram as lutas académicas em Portugal, quando a Universidade portuguesa se dá conta de que, afinal, havia muitas coisas erradas. Logo a seguir, dão-se as primeiras fugas, para a França e Suíça, dos estudantes ultramarinos que estavam em Lisboa. Naquela altura, Troufa Real não acompanhou nenhum dos grupos que “saltaram” para Paris, mas acabou por ser preso no dia 28 de Junho de 1961, tendo ficado detido até Outubro, em Caxias. Foi julgado no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, tendo sido defendido por uma célebre advogada, conhecida como a Emília do Cambão, que conseguiu pena suspensa apelando para que fosse levada em linha de conta a sua figura e a sua juventude.
De referir, o seu envolvimento na campanha de Humberto Delgado, em 1958. Afecto a Norton de Matos devido às ligações deste ao seu avô, que aliás esteve na origem de ser dado o nome deste general ao Balombo, que chegou a chamar-se Vila Norton de Matos, foi com entusiasmo que esteve presente quando aquele foi ao Liceu Camões, num célebre comício que reuniu a oposição. Assim como também assistiu à chegada de Humberto Delgado a Santa Apolónia e à célebre reunião junto da estátua de António José de Almeida, onde viu pela primeira vez a figura de Mário Soares, na altura um jovem. Lembra-se que, depois, veio a polícia, com gases lacrimogéneos, obrigando o Humberto Delgado a refugiar-se na casa do Keil do Amaral, junto da Casa da Moeda, onde é agora o Centro Comercial João de Deus.
«Quanto mais nos batiam mais gostávamos de intervir. Acho até que foram essas provocações e a repressão intolerável de que o governo de então usava e abusava, que me consciencializaram e levaram a sentir que deveria estar sempre presente e meter-me a fundo e a sério na acção política que ia sendo possível.»
Foi em Lisboa que aprendeu a gostar de conviver com gente da cultura e que se apercebeu de que isso era essencial para as suas actividades, a todos os níveis. Foi assim que, na inauguração duma exposição no Príncipe Real, em Lisboa, conheceu o Prof. Duarte Costa, que acabou por lhe dar aulas de guitarra clássica, tendo vindo depois a ser ele a dar aulas dessa disciplina numa escola que aquele virtuoso da guitarra abriu na Av. João XXI, onde, curiosamente, apareciam personagens como o pintor Carlos Botelho, o teatrólogo Fernando Amado, personagem fascinante, que foi o introdutor em Portugal da primeira tabela de atletismo e que orientava o Teatro da Comédia. Datam dessa altura as suas relações com o Carlos Paredes e o Fernando Alvim.
Acaboiu por fazer a especialidade de guitarra clássica no Conservatório Nacional com uma das grandes figuras da guitarra clássica europeia, o professor Emílio Pujol, de quem se viria a tornar amigo, tendo chegado a ir tocar a Lérida, a sua terra natal. Naquela altura tocava tudo, desde Bach a Vilalobos, chegou até a tocar no S. Carlos, a acompanhar o conjunto de Duarte Costa e ganhava ainda uns extras para equilibrar o seu orçamento com aulas pagas a 2$50 à hora, ao domicílio.
Entre outros, teve como alunos a Mara Abrantes, o Luís Cília, o Daniel Bacelar – introdutor do rock em Portugal – o Manuel Morais – o homem dos Segréis de Lisboa; abriu portas a muita gente, chegou a tocar com o famoso Carlos Paredes numa célebre festa de encerramento do ano académico.
E, além de ter tirado o “brevet” de piloto, na modalidade de acrobacia, trabalhou ainda em ateliers de arquitectura, tendo chegado a colaborara com um homem a quem sempre dedicou admiração e continua a cultuar: o arquitecto Cassiano Branco. Quer dizer, desdobrou-se em várias tarefas e actividades, todas desempenhando a preceito, conforme testemunhos dos seus vários amigos e conhecidos.
Mesmo antes de finalizar a licenciatura, foi o primeiro classificado no concurso público para a construção do Palácio da Justiça de Luanda, realizando durante os anos seguintes dezenas de projectos para a sua terra natal, sensibilizado pelos problemas e especificidades de Angola e do seu povo, o que o levará, mais tarde, a conceber, num projecto arrojado, uma nova capital para o país, a que chamou de Angólia, a situar num lugar que, do ponto de vista antropológico, deverá ser uma região de encontro de etnias, sem conflitos, terra de paz.
Em 1961, algumas das cadeiras de Belas Artes eram dadas na Faculdade de Ciências. Aí conviveu fraternalmente com o João Guterres, engenheiro e poeta, e conheceu, na luta académica, o Jorge Sampaio, o Abílio Mendes – que havia de tornar-se seu amigo – o Eurico Figueiredo, o Medeiros Ferreira, entre muitos outros. «Esta era uma geração que falava a toda a gente, que pugnava pelos direitos e pela liberdade; foram os protagonistas teóricos que sustentaram as bases éticas da Revolução de Abril. Ainda na Engenharia conheci o Fernando Vicente, que foi o entusiasta das festas do “Avante”, o Fisher Lopes Pires, o Vasco Gonçalves – um cerebral que é também um grande homem de cultura – o Augusto Fernandes, engenheiro notável que viria a ser ministro das Obras Públicas, entre muitas outras figuras que se viriam, depois, a revelar.»
Acabou o curso de Arquitectura em 66 e fez depois o estágio, a colaborar no projecto da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. Na capital portuguesa, trabalhou com o Raúl Rodrigues de Lima, que tinha um atelier de élite, onde se faziam Palácios de Justiça e demais obras ligadas aos serviços prisionais. Neste atelier, na Praça de Londres, conheceu o Almada Negreiros, escultores famosos como o Leopoldo de Almeida, e o conhecido introdutor do cartaz em Portugal, Fred Kradolfer, com quem aprendeu muito sobre a importância e vantagem das relações com os artistas. Foi com eles que deu conta de que, para além da arquitectura pura, era também importante uma parte complementar que são os ornamentos, os quais referem memórias, História, e cuja relação do espaço com a funcionalidade da luz pura era essencial para determinar os elementos que constróem os objectos.
«Sou católico de formação, mas eu, como muitos outros, fomos apanhados por uma revoada de marxismo, porque o catolicismo português estava na altura muito ligado ao Estado e à ditadura, perversidade que nos criava muito mau estar em relação à Igreja. Obviamente, entrei também nos caminhos da consciência trazida pelos grandes textos pedagógicos, fundamentalmente de Marx, os quais me marcaram muito como investigador, por aquilo que me deram a conhecer das contradições, e ajudaram a perceber as diferenças entre o catolicismo puro da mensagem bíblica e a sua prática, embora nunca tivesse acreditado no materialismo dialéctico, pois mantive-me sempre ligado ao idealismo, às causas do espírito, da alma, ao grande arquitecto do Universo, a Deus.
É evidente que a minha formação em Portugal acabaria por acentuar o que eu sou, um produto luso-angolano, um produto colonial. Mas quando regresso a Luanda, já havia em mim uma caldeirada onde não escapava o papel de Cassiano Branco, que me marcou indelevelmente, especialmente ao descobrir a importância do papel do pentagrama e do pentágono em toda a sua obra, não só nos ornamentos mas também na própria arquitectura, revelando-me a sua filiação na Maçonaria, organização que conhecia miticamente devido às ligações do meu avô Deodoro com a Kuribeka, de Benguela, e com Norton de Matos. A importância da Maçonaria em Angola era tão grande, que, por exemplo, apesar do controlo político do regime, o General Humberto Delgado ganhou as eleições em Benguela, o que Salazar nunca viria a perdoar.»
Por isso é que, apesar de formado em Portugal, com uma cultura informada pela reflexão dos primeiros modernistas, desfralda a tradição recortada pela influência africana, como salientou, após 1980, o Arq. Pancho Miranda Guedes.
Efectivamente, a sua personalidade está profundamente marcada pela cultura angolana, que reflecte, obviamente, na sua obra, em especial pela insistência da introdução na arquitectura do elemento fantástico e pelo uso da cor, cujo imaginário próximo do mundo tropical arrastou com ele para estas paragens lusas.
Curiosamente, como já dissemos, o seu primeiro projecto, que venceria um concurso oficial em 1966 – feito com o Lima dos Santos, sobrinho de Raul Rodrigues de Lima, e que seria assinado por este, por os dois ainda não estarem licenciados –foi o Palácio da Justiça de Luanda, ainda agora à espera de conclusão.
Tendo regressado a Luanda, em 1967, logo após ter concluído o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, para trabalhar, como retribuição, na Câmara Municipal local, que lhe tinha concedido com esse objectivo uma bolsa de estudos, impor-se-á na capital angolana com obras que muito incomodaram o chamado Movimento Moderno europeu colonial, que tinha a ver com um ordenamento previamente inventado, justificado, mas que não tinha em conta as pessoas ali, e naquele momento.
Toda a sua filosofia de obra de arquitectura e de invenção da cidade, partindo sempre do princípio de que as cidades são as pessoas e que cada vez mais é isso o que se deve ter em conta, fará dele o defensor dos musseques de Luanda, como território sagrado de famílias que ali nasceram e constituíram a cultura e os valores humanos daquela sociedade crioula, em contraposição à especulação que durante muito tempo grassou e que parece estar a regressar, agora, ainda mais à solta.
Isto é, a sua obra foi sempre adaptada às circunstâncias de tempo e de lugar, inventariando não só a memória do lugar físico, mas, fundamentalmente, a memória do lugar humano, a memória histórica para fazer a cidade e construir a casa, fazendo marcadamente uma arquitectura simbólica que vai contextualizando nos sítios por onde passa, com um grande respeito e dignificação das pessoas.
Um dos seus trabalhos mais emblemáticos em Luanda foi, no entanto, uma agência bancária, que carregou de erotismo, na linha aberta com a publicação do livro “O Erotismo”, de Georges Bataille, editado então pela Moraes, do António Alçada Baptista. Foi uma das primeiras agências do Banco Pinto & Sotto Mayor em Luanda, em pleno bairro da Maianga, e ficou como referência inovadora, na qual pretendeu fazer uma homenagem ao conhecido gravador português Bartolomeu Cid, autor de gravuras que muito o fascinavam.
Nesta obra teve a colaboração quase imprescindível de Carlos Fernandes, artista plástico cujo espírito surrealista manifestava permanentemente em todos os aspectos da vida. O Carlos Fernandes não gostava de trabalhar, e assumia-o, mas gostava de viver bem, gostava de tudo o que era bom, e era amigo de toda a gente, desde que não o chateassem. E só trabalhava porque precisava de ganhar alguns tostões. Desenhava muito bem, na tradição dos surrealistas portugueses do Café Gelo em Lisboa, como o Cesariny, o Cruzeiro Seixas e o João Rodrigues, grupo que muito o marcou. Troufa Real conseguiu integrar peças dele em quase todas as obras que fez em Luanda, inclusivamente conseguiu meter trabalhos seus na remodelação do Hotel Turismo, feita pelo arquitecto Vasco Vieira da Costa, apesar da oposição deste.
As artes e a cultura em geral misturam-se na sua obra duma forma sem limites. Até o Sebastião Coelho, falecido em 2002, que era um homem da rádio, um jornalista, fez uma sonoplastia para um pavilhão da sua autoria, que foi o da Nocal na FILDA, em 1973, que integrou um poema do Manuel Alberto Valente, actualmente um dos directores da editora Asa, do Porto. E mesmo o Herberto Helder o acompanhou também, chegando a escrever um texto, com pseudónimo, sobre o Almada Negreiros, quando Troufa descobriu a casa onde este nasceu na ilha do Príncipe.
É obrigatório evocar aqui o Café Zero, de Luanda, que era o contrário da cultura oficial que se vive agora em Portugal, que é uma cultura institucionalizada, fechada numa redoma à volta dos Centros Culturais de Belém. Ali, a cultura era partilhada a comer, a beber, a desenhar, a amar, juntávamo-nos quase todos os dias e ao sábado era sagrado conviver com jornalistas, poetas, escritores, pintores, homens do teatro, gente como esse grande fotógrafo do Sul de Angola, que era dono da Colorama, o Fernando Chaves, também recentementeque falecido, que até há pouco fotografava, e muito bem, a sua obra. O Aníbal Fernandes era importante porque introduzia nas conversas os “bas-fonds” subterrâneos daquilo que poderia ser o abominável mundo das artes e da criação da cidade de Luanda e de Angola, mas mantendo-se sempre atento, com as ironias possíveis e próprias do grupo, a tudo o que se passava em Portugal no âmbito das artes, da cultura e da política.
Advogados, empresários, homens como o Paula, gerente da Casa Campeão, mas que aparecia com uma conversa interessante, o Vasco de Oliveira, irmão do fundador da Livrelco, em Lisboa, e actual proprietário da Livraria Galileu, em Cascais, o crítico de teatro Humberto Monfalino, que era também comerciante de automóveis, o Domingos Van-Dúnem, que foi o primeiro embaixador de Angola na UNESCO, o Angerino de Sousa, um profissional de seguros que era, acima de tudo, um extraordinário humorista, o João Fernandes, que veio a ser o último director da revista “Notícia”, com as suas maldições, as suas ironias, as suas bocas de sempre, ainda hoje com “A Chuva e o Bom Tempo” em “O Diabo”. Sem esquecer, entre muitos outros, o José Sebag, um grande jornalista que era um belíssimo poeta, o pintor Luís Jardim, desaparecido este ano, o actor Fernando Gusmão, o pintor Rocha de Sousa, o galerista Manuel de Brito, os encenadores Norberto Barroca e Carlos Avilez, as actrizes Laura Alves, Eunice Muñoz, Io Apoloni e Alda Rodrigues, assim como o marido desta, o José Campelo, e o Sande Lemos, não esquecendo o grande cronista e poeta Ernesto Lara Filho e o Liceu Vieira Dias, o maior músico angolano. E também homens de dinheiro. E lá apareciam, às vezes, os seus clientes, que eram sempre de primeira linha, como o Manuel Vinhas, o Jana Raposo de Magalhães, o Eugénio Correia da Silva, Conde de Paço de Arcos, e o João Marques Pinto, o pai, é claro.
Estes eram homens que permitiam as artes respirar. O Cruzeiro Seixas fez, à sua vontade, toda a colecção do Manuel Vinhas, que, depois, a veio a oferecer ao Museu de Angola. O Salão de Arte Moderna foi feito por um grupo onde pontificava o Troufa Real e naquele período foi o salão mais importante das artes que se organizava em todo o império português. Porque juntava o dinamismo do Núcleo de Arte de Moçambique – que ainda hoje está a dar provas de vitalidade – ali levando o Malangatana e o Chichorro, e a colaboração da Sociedade Nacional de Belas Artes, de Lisboa, SNBA, que estava praticamente apagada nesse período, mas que deixou o Manuel de Brito, da Galeria 111, organizar a recepção dos trabalhos para irem para o Salão de Arte Moderna de Luanda. O grupo conseguiu arranjar prémios de aquisição que constituíram a primeira herança do Museu de Angola, espólio que hoje qualquer museu do mundo cobiçaria, porque desde Noronha da Costa a Eduardo Nery, a Bartolomeu Cid, a Jorge Pinheiro, e a Júlio Pereira, enfim, tudo o que era modernidade em Portugal, até aos anos setenta, lá está. O júri era constituído, muitas vezes, por alguns conhecidos opositores ao regime, como foi o caso de Rui Mário Gonçalves e de Júlio Pereira.
Por outro lado, no Dia Mundial de Teatro, em 1972, era ele presidente do Clube de Teatro de Angola, conseguiu-se levar a Luanda homens como o Bernardo Santareno, Deniz Jacinto, Adriano Gusmão e Norberto Barroca, conhecidas figuras da oposição em Portugal, mas que eram, acima de tudo, homens da cultura. Quer no Café Zero quer na esplanada do Baleizão, à custa da cerveja Cuca, que era propriedade do Vinhas, e do presunto de Chaves arranjado pelo Tarique, convivíamos com a Lia Gama, a Eunice Muñoz, o José de Castro, o Nicolau Breyner, a Io Apoloni, o Vasco de Lima Couto, actores que passavam igualmente por sua casa.
Enfim, no tropicalismo da sua arquitectura encontra-se uma deliberada vontade de aprofundamento das relações culturais com África, para enriquecimento do nosso imaginário, que sempre foi feito de viagens e outros mundos. Disso é exemplo, um dos seus relógios, com palmeiras de cinco ramos e um triângulo mágico, que é, simultaneamente, uma assinatura e uma proposta cultural.
Conhecedor atento da arquitectura angolana, baseou-se, entretanto, em testemunhos da literatura histórica e social de Angola, para sugerir a construção, urgente, de uma nova capital para Angola, baseada em estudos arquitectónicos urbanos de autóctones, do País.
Segundo ele, “ao entrar-se no terceiro milénio, poderá (ou melhor, poderia) nascer uma nova cidade no centro de Angola: Angólia, uma nova capital. Cumpria-se assim a histórica vontade da criação de uma nova capital política da nação, na construção do futuro da paz conquistada pelo diálogo no encontro das ideias, da liberdade e da fraternidade entre os homens da terra angolana.”
Seria o símbolo da reconstrução angolana, do encontro dos Reinos Históricos de todos os grupos étnicos, das ideias liberais, dos direitos do Homem, do progresso político, económico, social e cultural. “Para salvar Luanda é necessário construir uma nova capital no coração de Angola, numa região de encontro de etnias”, insiste.
Seria uma cidade a construir no centro de Angola, que funcione como polo de atracção populacional numa região fracamente povoada, e que sirva como dinamizadora de investimentos e de cultura, o que viria facilitar muito a vida das pessoas e a administração, em melhores condições do que na actual capital, pois só a consciência e enraizados sentimentos de solidariedade permitem aos habitantes de Luanda viver nas condições actuais.
A ideia para a criação de Angólia nasceu na década de 70, em Luanda, quando ali desenvolveu  projectos de reconversão urbana e deu conta de que urgia levar, ao interior de Angola, parte de um progresso secularmente centrado no litoral, e era necessário renovar a consciência da própria identidade do País. Depois, teimosamente, foi juntando à sua volta diversos especialistas, portugueses, brasileiros e angolanos, conquistados para o projecto de construir uma nova capital.
Em declarações ao “Expresso” (15-06-1996), apontou que «A solução mais fácil é deslocar a capital de Angola para outra região, e assim se salvaria Luanda e se promoveria a qualidade de vida das populações, devido ao sítio previsto ser menos húmido e com temperatura mais amena. Daria origem a uma enorme poupança energética, por causa do clima – ar condicionado e desumidificadores”.
«A escolha da zona para implantar a nova capital atendeu a uma multiplicidade de factores. Desde a proximidade de rios à existência de vias de comunicação, passando pela situação climatérica e pela qualidade dos solos agrícolas. E foi tida em conta a neutralidade histórica da região para as diferentes etnias angolanas. Estrategicamente colocada no Centro do País, entre o Luena e o Cuito, Angólia juntaria essas características”.
«Em vez da lógica colonial, tem de se pensar em acabar o desequilíbrio entre o interior e o litoral, onde vivem 60 por cento da pessoas. É preciso salvar as cidades históricas. Por exemplo, em Luanda, a população tem que descer de cinco para apenas um milhão, talvez até mesmo o meio milhão de habitantes, porque para isso é que a cidade foi preparada. Conforme está, actualmente, Luanda é uma cidade com altos riscos sociais, de saúde, pois as infra-estruturas não acompanharam o ritmo de crescimento da cidade, por mais esforços que se façam. Ora, Luanda é uma cidade que considero património mundial, que deve ser protegida e acarinhada, porque ali se passou muita da História de Angola, a da escravatura especialmente, e a da liberdade também, com monumentos e sítios que têm de ser salvaguardados».
Por outro lado, é de capital importância pensar-se numa cidade central política, nacional, a localizar numa região que possa congregar etnias, valores antropológicos, e que, por razões de natureza humana, seja um sítio equilibrado para todos, para acabar com lutas ancestrais, acrescenta. «A cidade como capital política tem que ser dignificada, tem que ser uma cidade democrática, tolerante, moderna, compatível com as cidades capitais de todo o mundo, para a qual se exigem condições físicas próprias e um clima mais propício do que o de Luanda, que está numa região tropical, quente e húmida, quer dizer, imprópria para os serviços administrativos exigidos por uma capital. Tem que haver um esforço financeiro muito grande para dotar os ambientes bem como o conforto humano porque, como se sabe, nestas regiões, os serviços precisam de cuidados, e não é à custa do ar condicionado, nem à custa de artifícios tecnológicos, mesmo pegando na antiga arquitectura tropical, que se encontram as condições.
Porque a ventilação resolve o problema do conforto humano, mas não resolve o problema da humidade nos papéis e nos equipamentos electrónicos. Luanda tem uma humidade que atinge muitas vezes 90 por cento e às vezes mais, o que é incompatível para uma cidade terciária que tem de ser uma cidade capital, que vive de serviços, pelo que a humidade e a temperatura médias têm de manter-se num limiar de modo a que as coisas possam funcionar com eficiência. Seria uma nova imagem de um país independente, liberto, e que não tem que estar amarrado ao passado. Os americanos fizeram Washington, uma cidade inventada, política, para capital da federação e os brasileiros mudaram três vezes a capital; primeiro foi a Baía, depois Olinda e o Rio de Janeiro e, no século passado, passou para Brasília, uma cidade planificada de raiz especificamente para centro administrativo.
Aliás, a Índia fez também isso, assim como a Nigéria, porque as cidades inventam-se, não nascem como a mandioca, são criadas pelas pessoas, as pessoas é que têm que as fazer. Uma cidade é como um jardim, semeia-se a primeira planta e depois vai crescendo. Desde que os angolanos são independentes ainda não inventaram nenhuma cidade, pelo contrário, destruíram as poucas que tinham. Resultado, voltar àquilo que seria “oh tempo volta para trás!”, é um mau princípio, uma nação não se faz assim. Só os saudosistas é que pensam que Luanda deverá ser como nos anos 60 e 70 com a Marginal, o Zero, a  Versalhes, as pastelarias à europeia. Isso é uma utopia.
Luanda é, actualmente, uma cidade africana, que tem uma identidade nova, onde há uma convivência diferente, até no aspecto da política. Como diriam os marxistas – atenção, eu não sou marxista – para mudar de vida é preciso mudar a cidade. Nisto estou de acordo com eles, “changer la vie, changer la ville”, essa é mesmo uma condição de base. A primeira reflexão a fazer era uma análise introspectiva da sociedade angolana, que tem que ser levada a cabo pelos intelectuais, pelos investigadores, pelas universidades, e depois, pelos próprios arquitectos, angolanos, que já são muitos, os quais devem ter a consciência de que a arquitectura não se pode submeter à globalização, nem à internacionalização; se há uma luta contra a globalização nos planos económico e político, também deve haver nos planos da cidade, da arquitectura e da vida.»
Por isso mesmo, começa por ele próprio, assumindo-se, sem rebuço ou vergonha, antes pelo contrário, com muito orgulho: «Eu sou angolano e reivindico o meu direito, como arquitecto angolano, de também contribuir para a invenção da cidade em Angola. Tenho esta capital estudada, com uma grande equipa de angolanos, voluntariamente, porque não foi uma encomenda – porque nós, os arquitectos, também devemos ser como os escritores, como os poetas e como os pintores, devemos saber trabalhar com as utopias, com a invenção e fazer produtos que são de investigação. Esta minha cidade vale o que vale, ou seja, vale um sonho e espero que um dia alguém com uma consciência nacional, com uma consciência angolana, e com poder político, possa pegar nos sonhos dos poetas, nos sonhos dos arquitectos e das pessoas, fazer com que ela seja concretizada, porque as cidades são as pessoas.
Porque não foi por acaso que frequentei, em Londres, um curso dedicado ao planeamento nacional e regional e, depois, fiz a pós-graduação numa área que interessava não para a minha carreira académica para Portugal, mas sim para Angola. Aliás, eu fiz, sobretudo, investigação dirigida a Angola. Se forem ver as minhas publicações inglesas, os meus trabalhos dessa época, são todos dirigidos a Angola, com a excepção dum, que foi sobre o Serviço Ambulatório de Apoio Local, SAAL, que é uma matéria que me interessa, levado a cabo depois do 25 de Abril em Portugal, sob a direcção do Nuno Portas, quando este era Secretário de Estado. Todos os outros trabalhos são coisas que se dirigem à sociedade africana, angolana, e socialista na altura. Daí eu ter viajado, no âmbito da Architectural Association School de Londres, até Moscovo, Polónia, RDA e Checoslováquia, onde fui estudar os casos da habitação, não só de housing, habitação social, que rejeito, sob o ponto de vista de intervenção do Estado, mas também sob o ponto de vista da invenção nacional. Fui estudar como é que se pode promover a redução da população das cidades sem ofender os cidadãos e aumentar a sua rede de infra-estruturas, de modo a dar-lhe mais qualidade».
Aliás também não foi por acaso, que foi ele quem esteve na base do “assalto” à Câmara de Luanda, nos idos de 1974, quando o poder tinha mudado, sem, entretanto, ter conseguido abalar a edilidade local, que continuava, parada, mas como se nada se tivesse passado.
«No início de 1975, a minha ligação ao MPLA era tão grande que fui eu quem propôs e dirigiu a tomada da Câmara Municipal de Luanda, o que veio a acontecer com a colaboração de várias forças da altura, como a Maria do Carmo Medina, do Movimento Democrático de Angola, o Sousa Dias, o Ernesto Ferreira, o Zeferino Cruz mais o Antero de Abreu e o Eng. Carlos Ferrão, assim como de vários grupos vindos dos musseques. É evidente que primeiro assegurámos o apoio da Junta Governativa de Angola, chefiada por Rosa Coutinho, e do Pezarat Correia, José Emílio e Correia Jesuíno, assim como de outros membros do MFA.
Eu costumo referir que os gregos viviam melhor do que os actuais cidadãos, habitantes das cidades. Porque os gregos, quando viam que uma cidade estava saturada, não a deixavam crescer, construíam outra. E daí a expansão grega. Uma cidade é como um avião, tem uma lotação. A partir da lotação esgotada, faça-se outra. Os gregos e os romanos deram essa lição, que infelizmente se teima em esquecer, a não ser os americanos, na sua aventura da invenção nacional, ou os antigos colonos que fizeram Angola.
Porque, sublinhe-se, embora o esforço físico fosse partilhado por portugueses e angolanos, foi daqueles a inteligência administrativa, política e até diria estratégica. Não tenhamos ilusões, a rede urbana angolana foi inventada pelo Ministério das Colónias. As fronteiras foram delineadas pela Sociedade de Geografia de Lisboa, por militares e marinheiros, mas as cidades foram um acto de inteligência e de respeito pelas pessoas de então. Porque, para inventar uma cidade tem que se ter coragem, respeito pelas pessoas, inteligência, qualificação, formação, e foi para ajudar nisso que fui especializar-me a Londres, qualificar-me, tendo tido grandes professores destas áreas, alguns latino-americanos e outros ingleses, como Ronaldo Ramirez, Jorge Fiori, Hantarnis, Nick Jefry, entre muitos, como Rod Burgers, o homem do planeamento nacional, crítico à intervenção da auto construção na América Latina, e contra John Turner e as formas marxistas de intervir na cidade, como as micro-brigadas cubanas, por exemplo.»

 

Rodrigues Vaz
Jornalista

Jan 06

Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura, 1994

Jan 06

Revista Caju, 2011-03-11


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Jan 06

Lisboa Urbanismo, 1998.12/11


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Jan 06

Revista Angolé, 1999.05/04


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Jan 06

Revista África Hoje, 2001.01


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